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Showing posts from July, 2003

Chuva, lava isso embora...

– Levanta aí, vamos conversar. – Vamos. Ele se levanta do chão com algum esforço. Bate a poeirada roupa, poeira que ele nem sabia de onde veio. Os dois andam por uma pradaria onde o nada os cercava. Caminhavam sem pressa, ignorando a chuva que ameaçava cair. O que chamou quebra o silêncio confortável. – Você é patético, sabia? – Sabia. – Eu te acompanhei este tempo todo, te avisei do que estava acontecendo, e você... – Vai ficar aí me dizendo o óbvio, o que eu já sei? – Er... não. Certo. Você... está bem? – Estou andando, não estou? Acho que entrei naquela fase. – Eu adoro esta fase sua... – Só porque você fica no controle, né? – Por mim eu ficava no controle o tempo todo. – Não ia prestar. – Ah, qual é? Toda vez que você toma conta, acontece isso. E quando acontece a tragédia – e sempre acontece –, você larga tudo e vai pro seu canto remoer. – Não é remoer. É aprender. Pra não se repetir. – Não tem funcionado, pelo jeito. – São situações diferentes e você sabe disso. – Tá...

Fluxo de consciência

Escrevia ensandecidamente, sem mesmo parar para consultar no dicionário como se soletrava a palavra ensandecidamente. Era febril em sua ação. Ele não parava nem mesmo por solicitação de seu corpo, a lhe chamar a atenção com alertas de dores nas costas, na mão, na vista. Ignorava seu próprio corpo como fazia com as pessoas que se aproximavam, ou melhor, tentavam. O pensamento era tão furioso que as idéias faziam barulho ao cair no papel, onde iam formando um desenho ortográfico nada ortodoxo. Ele não seguia ordem alguma ao escrever. Algumas palavras soltas no topo da página, mais algumas no meio, outras no fim. Era um mosaico confuso no papel, algo sem forma ainda. Era isso que o incomodava. A imagem estava em sua cabeça e ele não sabia como pari-la. – As letras, as letras não fazem sentido algum!! Jogo-as no papel e não fazem sentido, tenho que embaralhá-las, catar uma a uma e colar... não quero! Quero esparramar as letras e deixá-las seguirem o acaso, que é mais conscient...

A distância e a Internet

Trecho de Irmãos Karamázov , de Fiódor Dostoiévski : " Assegura-se que o mundo, abreviando as distâncias, transmitindo o pensamento pelos ares, irá unir-se cada vez mais, que a fraternidade reinará. Ai! não acreditem nessa união dos homens. " Sem saber, no século XIX, Dostoiévski previu uma faceta da internet. Ela permite que pessoas com distâncias enormes entre elas se conheçam e se falem, diariamente até. Permite que se vejam, que se ouçam. Mas a distância continua ali, imponente, o espaço a rir de nossa impotência de humano limitado. Conseguimos chegar até Marte, mas ainda não existe forma rápida e barata de se superar algumas centenas de quilômetros. E aí como fica aquela vontade de sair pra ver um filme junto? De fazer aquela confidência que precisa do contato inigualável do olho no olho, o contato que sonda a alma? De fazer algo simples mas significativo como tomar junto um sorvete sem palavras em uma tarde triste? Fica só vontade, vontade não realizada que...

Medo em Columbine

– Pula. – É, pula logo!! Ele não queria pular. Sentia algo o impedindo de fazê-lo. O vento no rosto, no corpo, cortando-o com uma lâmina de frio? Era a sensação de desamparo causada pela falta de apoios em ambos os lados? Talvez a altura, maior do que tudo, uma gigante pronta a devorá-lo em um segundo de imprudência. Não. Era o medo. O medo o impedia de pular. De conhecer um mergulho gostoso, a sensação de se juntar à agua fria a apagar o incêndio na pele e acalmar a pira da alma. O medo o impedia de fazer uma coisa que poderia ser boa. Mas era um medo infantil. Logo cresceu e superou os medos dos atos físicos; estes realmente são bobos e não representam desafio à mente. No entanto, nações inteiras vivem com medo. Em seu brilhante filme Tiros em Columbine , Michael Moore expôs o medo que não somente impede um povo de se conhecer, de abrir portas e janelas, mas também impulsiona um comportamento autodestrutivo e praticamente suicida de alguns cidadãos mais exaltados pela in...

O amor expira

É hora da sangria. Eu não queria esse dia. O tempo que se espera entre nascer e se matar é ínfimo e infinito. E aí se inventa de amar para o tempo passar em um minuto Mas é então que se gasta a alma, se acaba um pouco. Depois não tem como dar basta, não tem como não ficar louco A alma se esvai, não é pra sempre Se pára de amar, se morre por dentro. E a dor o abandona Nada mais o engana Você é vazio Tudo é fastio A hora de ir não chega mesmo que se espere. Mesmo quando tudo o nega, não se desespere. Espere.

O sentimento muda

Eu queria postar a todo minuto. Queria expor aqui tudo que sinto o tempo todo. Mas não é possível. Seria muito confuso. Eu não sei o que sinto. Você não sabe o que sente. Para descobrir, teríamos que elaborar um gráfico, determinar um período, fazer médias e estatísticas. Mesmo assim, seria algo que valeria por pouco tempo. No momento em que descobríssemos o que sentimos, este sentimento já teria passado. Sim, os sentimentos mudam o tempo todo. E não percebemos muito bem isso. Achamos que estamos sendo coesos o tempo todo, e não estamos. Porque por mais que os escritores falem destes dois que habitam dentro do mesmo ser – o emocional e o racional –, eles são um só. Aquele turbilhão de sentimentos também faz parte do racional que vai te fazer reagir de tal e tal jeito. Por isso eu disse que não tenho certeza. Porque eu sei que vai mudar. Amanhã. Daqui a cinco minutos. Daqui a cinco anos. Sempre, sempre vai mudar.

Mente mente

– Preciso sair. Sair. Com aquele pensamento na cabeça ele desatinou a andar. Entre os carros e os postes, na frente das lojas. Na frente das pessoas que ele queria tanto evitar e inexistir como elas faziam com ele. Sua cabeça fervilhava e todo aquele excesso era escoado por palavras soltas emitidas para ele mesmo: – Pés idiotas que não sabem andar e machucam quem precisa neste momento correr. Correr a uma velocidade crescente, cada vez mais rápido, correr e fugir e ver as pessoas como nada mais que um borrão. Pessoas idiotas, que não sabem nem onde estão nem para onde vou. E por isso ele se ancorava naquele pedaço de papel, indicações e nomes e placas, tudo que parecia humano mas não era. A sede o provocava e espetava sua boca toda vez que ele vislumbrava o brilho da água na rua, sendo desperdiçada e derramada junto com a sujeira. Óleo, pó, lágrimas que ele não viu caírem mas caíram dentro das casas, na intimidade impenetrável dos banheiros e suas portas fechadas. Ele lembr...

Anjo?

– Terminei de fazer o que você me pediu. – Ah, obrigada. Você é um anjo. – Não, não sou. – O que eu posso fazer para retribuir? Ele vai até a cozinha e volta com uma faca. Uma grande, afiada, reluzente. Do tipo que serve para cortar pulsos e carnes. – Toma. Me mata. Ela fica absolutamente sem ação. Como assim matá-lo? Ela olhava para ele e para a faca, sem saber o que fazer. Sua vontade era de estapeá-lo e abraçá-lo ao mesmo tempo. Ela grita, simplesmente por não ter alternativa: – O quê!? Como assim te matar? Eu... agh... arrr... me diz... Ele a interrompe. – Tsc. Ah, esquece. E volta pra cozinha, levando a faca. Ela serviria mais tarde para fatiar alguns legumes. O jantar começaria a ser feito daqui a pouco. A mulher, ainda atônita, acompanha-o com o olhar. Sua cabeça não tinha como mandar qualquer comando para suas pernas, devido à informação pesada e difícil de digerir que recebera. Ele volta com um sorriso no rosto e ela consegue esboçar uma reação e segurá-lo pelos b...

Auto-exame

Eu queria ver meu coração agora. Retirá-lo de meu peito. Ver se ele tem todas as cicatrizes que eu sinto. Ver como ele bate. Por que ele bate. E entender.

Sem restrições

Eu estou nu. Sem barreiras. Sem defesas. Vocês entram aqui e me lêem, me vêem como sou , sem os pudores da sociedade. Aqui eu não tenho que mostrar o sorriso social, a cordialidade, todos estes comportamentos pré-estabelecidos para convivência em comunidade. Se aqui eu digo que sou triste, você pode esperar que eu seja triste quando eu estou longe das pessoas , ou pelo menos longe das pessoas para quem eu sinta que tenho que mostrar funcionalidade social. Aqui não. Aqui eu choro convulsivamente, aqui eu falo das minhas vontades, dos meus pensamentos em depressão e suicídio, da não-existência do amor. Eu poderia muito bem guardar tudo isso pra mim mesmo. Mas aí eu seria apenas mais um. E eu quero fazer a diferença, porque a diferença está em mim e eu a sinto o tempo todo. Não me importo que haja pessoas que vão ler toda esta tristeza e vão vir falar comigo, e me ver e perguntar se está tudo bem. Elas vão receber a resposta padrão: sim, está tudo bem . Mal está quem não cons...

Tristeza absoluta

Eu quero a tristeza absoluta e ela não existe. De uma forma ou de outra eu sempre a procurei, e ela a mim. Não era amor que eu procurava, mas sim a decepção; era o combustível para minha tristeza. Claro que cansa, claro que dói e que a dor não estava nos planos. Por isso me acostumei, passei a ignorar a dor da decepção. A decepção não é o foco deste texto nem da minha vida, isto ficou claro agora. Vou sempre procurar a tristeza mesmo nos momentos felizes. Vou buscá-la nas memórias, que nunca me traem nessas horas. Vou buscá-las nas pessoas ao meu redor, vou drená-la de vocês se for preciso. Não hesitem, não resistam. Vou ouvi-la na música, em toda música. Vou farejá-la nos cheiros da infância, ah, a infância. Tão rica em tristeza, tantas possibilidades, tantos fatos ricos nesse sentimento. Que aliás não é mais sentimento; não, não, agora é um estado químico-físico, além do gasoso, líquido e sólido. Encontro-me no estado triste e não há temperatura ou falta dela que me tire...

Sobre mim

Eu sou mais ou menos humano do que vocês pensam.

Sobre viver

A vontade de viver vai e volta. Ela é como um animal selvagem que se assusta com a presença de humanos.

Razões

Eu escrevo para quê? Para mudar o mundo. Para tentar torná-lo mais habitável para mim, para que eu possa sair do meu casulo. Para que a angústia me abandone.

Passeio

Eles estavam andando pelo comércio. parando em cada loja. Ela se mostrava animadíssima, comprando uma roupa aqui, um presente ali. Ele prendia um sorriso a cada comentário, pergunta e pedido. Estava prendendo a felicidade para não deixá-la se ir de vez. Ela estranhou a calma dele. Nunca o viu tão contemplativo, tão quieto. Pelo menos não desde que começaram a sair juntos. Abraçou seu braço como costumava fazer para sentir-se bem, e bem sabia que ele gostava de ampará-la. – Amor, você está tão quieto hoje. O que foi? – Eu... nada. – Pode me falar, vai. – Eu... queria viver um pouco menos hoje. Tão estranho ele dizer aquilo. Mas ela estava acostumada a seus momentos de introversão. Os olhos dela marejaram e ela o beijou, como que querendo sugá-lo de seu mundo. A lágrima dele caiu em seu rosto, molhando a pele macia dela. Ela entende .

In-alma

Vou me esconder nas palavras para não descobrirem que não tenho alma. Que minhas lágrimas brotam somente das glândulas e evaporam num rosto quente mas não caloroso. Para não descobrirem que mesmo como máquina, tenho desejos. Isso nunca! Porque o desencontro é grande demais, e não vale a pena ver o abismo que há. Só assustaria, e se correria o risco de cair. O calo é tão grande e tão rígido que suprime o músculo, que não consegue contrair mais. O resultado é uma serenidade sem tamanho ocupando todos os poros, todos os vãos... em vão.

Casal - Parte II

Ela se recompôs, pegou seu cigarro que havia caído no chão e continuou, decidida a não sair dali sem vê-lo despedaçado: – Você quer definir o nada, então? Porque é isso que há entre nós. – Se não houvesse nada, você não estaria aqui. – Eu sou mais desocupada do que você pensa. Estou aqui mais pelas piadas que você está a me contar do que por você. Começava a perder seu equilíbrio, o coitado. Não havia como se manter em pé, nem fisicamente nem mentalmente. Titubeava, tanto em sua fala patética quanto em seus pensamentos abalados: – Mas... você disse... você estava... – Eu nunca disse nada, seu idiota. nem estive qualquer coisa em relação a você. As lágrimas começavam a querer sair de seus olhos ardendo em chamas. Se pelo menos ele tivesse guardado alguma para aquela ocasião... Teve de juntar os últimos resquícios de forças que tinha para falar o que lhe levou os últimos meses para formular: – Então... o que você quer de mim? Quer que eu suma? Quer que... eu morra? Ela o ol...

Casal - Parte I

Um casal. Uma sala vazia. A sala predicava os sujeitos e concordava completamente com eles, iconizando sua relação. O homem se mostra nervoso, às vezes até irritado. A situação não o agrada, apesar de fisicamente ele estar bem. Ao mesmo tempo em que ele quer olhar para a mulher, a sua visão lhe dá reviravoltas em sua mente, parecidas com a que eles passaram juntos. A mulher está morta. Pelo menos aos olhos dele. Não esboça uma reação a sua presença, ao fato de eles estarem ali, sozinhos. Ela parece não se importar com todo o tempo dispendido naquela relação, nem com tudo que ele fizera até ali para estarem juntos naquele momento. Acende um cigarro e coloca o braço em volta da cintura, numa postura desafiante, e pergunta deixando as palavras caírem ao chão para ele ter de abaixar para pegá-las: – O que você quer afinal? Ele não acreditou quando ouviu aquela pergunta. Ela estaria se fazendo de retardada, por acaso? Não lembrava tudo pelo que eles passaram até agora, perdeu a...

Nada a se fazer

– Você se importaria de ficar comigo? Quem disse isso tem uma língua que já conheceu muitas línguas como a sua. Entre mordidas que não se sabe se foram para provocar sensação ou se foram de raiva da situação, o que se sentiu além do contato de corpos, do toque quente e molhado, das mãos na nuca e deslizando pelos cabelos, prendendo a cabeça para não se perder? Nada. Não se sentiu nada. Guiados pela embriaguez, unidos pelo acaso. Orientações confusas e inexclusivas, papéis invertidos e poucas palavras. Não era necessário falar porque não se havia o que dizer, só o que se fazer. Era a manutenção dos corpos, o exercício necessário para não se definhar. Sensações em detrimento do sentimento. Pelo menos nada se perdeu, nada ficou, nada nasceu. Nada.

Previsão

As marcas indeléveis da sua existência, que cruzou com a minha e a destruiu, voltam com força total ao vê-la. Tudo que estava parado, quieto e em paz entra em alvoroço, um verdadeiro caos se instala e derruba o que se organizou com tanto esmero. E ao prever tudo isso eu fugi.

Expect me to wait

I can wait, forever if you please but I won't expect you will play, you will tease and crush my self respect

B&W&G

I want to be able to see black and white and all shades of grey and the blue that will never go away

Carlos

Carlos não aguentava mais. Sua vida estava cheia demais, problemas demais, pessoas demais. Todos se falavam o tempo todo, mas nada parecia ser dito. Onde estavam as coisas novas? Onde estavam as palavras complicadas mas bonitas que traziam um significado enorme para sua cabecinha tão pequena, quando ele era menor? Só porque crescera, não deveria deixar de aprender. Então era isso. Ou aprenderia uma palavra nova ou pararia de dizer. Cansara completamente de repetir o que já sabia de cor. Cheia. Vida cheia. Carlos tinha deixado entrar tantas coisas dentro de si mesmo que já não sabia se ainda podia se encontrar no meio de tanta coisa. As palavras, que eram tantas e tão complexas e tão bonitas, enchiam sua barriga muito mais do que a comida. E as pessoas, que iam e vinham para lá e para cá, ele comia com os olhos famintos. Lotada. Mastigava cada sílaba, cada órgão, e vomitava poucos. E ouvia ecoando dentro de seu próprio corpo: vida cheia, vida cheia. Onde encontrar palavras?...

Vontade humana

A vontade humana é incontrolável. É um cavalo xucro, simplesmente. Ninguém sabe aonde ela vai, por onde ela vai, pra quem ela se dirige. Os mais sábios, pelo menos, fazem alguma idéia de suas preferências. Os mais limitados a seguem cegamente, sem se importar com outras coisas tolas e sem importância, como sentimentos alheios ou ditames sociais. E não há porquê tentar pará-la. Não, não, nunca faça isso. Não se quebre. Pois é pior do que tentar fazer seu braço dobrar para outro lado, pior do que tentar fazer seu sangue fluir em outro sentido. Não é somente contra o físico que você lutará, mas também contra sua própria mente, que agora te confunde e te deixa tonto. Você não sabe mais quem é, mas é algo diferente do que você conhece. Não se prenda ao passado , pois é lá que ficou aquele ser confuso que não entende mais nada do que está acontecendo. Se a vontade própria não pode ser entendida, ainda mais enigmática será a vontade alheia. Presunçosos são os que dizem saber inter...