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Showing posts from September, 2003

Defenestrar, verbo pronominal

Eu estava andando no parapeito da nossa conversa, sentindo o gosto frio, vermelho velho e enferrujado do tétano nas grades. Era um pouco melhor do que o gosto das suas palavras. Aquele era o gosto de uma doença certa, que corroeria minha língua, dentes e maxilar. Com sorte cordas vocais. Me lembrou o gosto metálico do ferro do meu sangue que sinto a cada injeção aplicada. Antes que eu caísse em divagação sobre o que estava ouvindo a conversa acabou. O recado foi deixado, a máquina gravou sua mensagem e você não precisava mais se preocupar. Pacotes e encomendas entregues. Pegue seu recibo e fuja. Apoiando-me na janela, sinto-me como que agarrado à grade para não cair. Apesar de me ver lá embaixo ocupando uma vaga dos objetos que podem se mover. Agarrado à grade e olhando pro branco acima, sem nunca descobrir se existe chão. Solto a grade para sentir o branco. Caio?

A gente aprende a se virar

Um ano tentando aprender a nadar. Tentando deixar de engolir água, tentando manter a cabeça à tona, tentando ver se algum barco se aproximava. Alguns se aproximaram. Alguns passaram. Alguns jogaram bóias com cordas cortadas. Tanto faz. Agora eu respiro debaixo d'água.

Pensamento inquieto

Penso. Penso no que você vai pensar. Penso no que vocês vão pensar. Penso no que você pensa do que eu penso. Penso no que vocês pensam do que eu penso. Peno no que você pensa. Peno no que vocês pensam. Penso se o que penso é meu ou se é a mistura do pensamento de vocês com o meu. Ou se é só o pensamento de vocês. E na hora de escrever, as palavras que escolho são fiéis ao pensamento de quem? Ao meu? Ao seu? É confuso. Não sei o que escrever. Não sei escrever. Apenas jogo as palavras e vou catando algumas, separando outras para depois e jogando fora outras. Nunca faz sentido. Nem mesmo após ter terminado, eu vejo mil falhas. No texto. No pensamento. Vocês pensam que eu existo.

Cartas enviadas

Hoje eu poderia escrever até meus dedos acabarem e não ia passar o que sinto. É horrível poder me mover e não poder ir para onde você está. Talvez eu preferisse dar um tiro na medula do que poder me levantar. Mas nããão, eu posso andar e correr e subir muralhas, mas algo me impede de passar por esta porta da qual eu até tenho a chave. Não, não está chovendo lá fora. Antes estivesse, até condiziria com meu estado de espírito atual. Mas faz sol e eu não estou satisfeito. O calor que eu produzo já não é mais suficiente, eu quero o seu calor. Esse meu calor que eu preservo com roupas e edredons já me irrita a ponto de eu preferir o frio. Eu quero o seu sol, que vai me aquecer, me iluminar e derreter essas minhas asas de parafina que nunca me levaram a lugar algum. E definitivamente não estão me ajudando a chegar aí. É, estes são os devaneios de uma mente livre e trovadora. Mente livre, coração longe (pra que você acha que eu mandei uma carta numa caixa tão grande?) e corpo pr...

Experiências

Meu coração não é virgem. Mas estupros não são legais.

Pai de um filho não nascido

Foi acordado pelo cutucão dela. Estranhou vê-la ali, afinal ele mora sozinho, e ninguém tinha a chave. Ela falava sem parar, e ele ainda naquele estado semi-consciente não entendia nada. Pediu um tempo pra se recompor, ou pelo menos acha que pediu. Sua mente ainda estava em pedaços desconexos, as informações não paravam de chegar, ela não parava de falar. Grávida , ela disse. Grávida . Era importante a ponto de justificar ela arrombar a porta dele e acordá-lo. Ele seria pai. Ele que nunca foi nem marido, parceiro, namorado ou algo que o valha. Ele não quis perguntar se ela tinha certeza que ele era o pai. Não lhe importava, só não queria afugentá-la, não queria que ela fosse embora com aquele presente. Se não fosse o sangue dele correndo nas veias daquele bebê, tanto melhor pro pequeno. Teria melhores chances de ser geneticamente feliz. Foram cinco meses de muito trabalho. Ela se mudou para a casa dele, naturalmente. Foi expulsa da casa dela como uma renegada, pelos mesmos ...

O sentido de não falar

Eu só queria gritar. Tantos empurrões, tantas palavras lavradas contra mim, pesadas e ásperas e incômodas. Tudo isso incutiu a raiva em mim, uma raiva que junto com álcool e injeções se tornava um ácido que corroía por dentro. Corroeu minha garganta para que eu não pudesse falar. Corroeu minha ação para que eu não pudesse reagir ou interagir. Ainda assim, eu queria gritar. Gritar toda a passividade que me fora impingida, que mais tarde eu transformei em impassividade. De certa forma eu gritava. Mas aparentemente, eu gritava para mim mesmo, e apenas meus ouvidos doíam e sangravam. Para o mundo era engraçado me ver abrindo a boca sem emitir um só som. Era hilário eu me debater contra paredes de espinhos venenosos. Era cômico eu me cortar ao desesperadamente querer abrir janelas a socos e cotoveladas. Pois bem, as risadas histéricas e estéreis ainda ecoam nas minhas cicatrizes. Isso também é risível. Então para que gritar? Vamos sussurrar. Sussurre o seu suicídio nos ouvidos ...

Aprendendo

Eu achava que sabia o que era amar. Achava que amar era coisa que não se aprendia, que já se nascia sabendo. Antes de aprendermos a respirar e a chorar já sabíamos amar. Com o tempo e a racionalização dos sentimentos, nos impedimos de amar. Sim, nós deixamos de amar com naturalidade e colocamos barreiras nesse amar. É um conceito bonito? Talvez. Mas não me parece ser verdadeiro mais. Porque por dentro de um corpo púbere e por trás de palavras de velho fica um coração de cristal: frágil, muito frágil, e transparente. Todos podem ver quem está dentro dele, ele é enorme mas comporta apenas uma pessoa. Esse coração nunca aceitou barreiras, racionalização. E pensava, assim, saber amar verdadeiramente. Tolo. Amar se aprende amando outras pessoas e sendo amado em retorno . Sim, amar se aprende, não se nasce sabendo. Pois bem, esse coração não sabe amar. Ele pensava que amar era ser jogado para fora daquele corpo e sempre cair no chão, pois ninguém nunca teve coragem de tentar seg...

Definindo coisas difíceis...

Amor. Eu achei que tinha apagado essa palavra do meu vocabulário, achei que era uma palavra inútil por nunca ser usada. Mas agora vem você e me contradiz, você contradiz tudo aquilo que eu tinha me resignado a aceitar. Eu tinha aceitado a idéia mais pessimista de morrer sem nunca saber, e aí veio você você com esta palavra e apagou tudo. O que faço eu agora? Eu sempre disse esta palavra, e agora ela me parece tão estranha ao sair não de minha boca, não de meus dedos. Sendo emitida para mim . Agora eu fico embasbacado. Não achava ser possível para mim. Não sei o que pensar, só sei que não posso continuar a ser o que era. Correspondência. Era tudo que eu desejava, era a falta desta que me tornava tão incompleto que eu não podia ser visto. Eu agora sei o significado dela porque você me ensinou. Eu já não sei dormir sem sonhar contigo. E me dói acordar sem te ver ao meu lado para confirmar que meu sonho é real. É um absurdo sentir falta e saudades do abraço que nunca tive, do be...

Visita

Toque, campainha, toque. – Quem é? – Sou eu. – Eu quem? – Eu. – Essa voz... não é estranha... – ... Ela abriu a porta sem acreditar que ele poderia estar do outro lado. Um movimento súbito, e aos poucos a luz trazia a imagem dele aos olhos dela. Era impossível, improvável. Ele estava lá, um sorriso no rosto, no olhar. O olhar mais sincero que ela já vira. Por momentos incontáveis, tudo que se fez foi olhar. E então ele fala (sim, ele fala!): – Oi. – Oi... Como você...? Você não avisou que vinha! – Esse tipo de aparecimento não dá pra avisar. E eu posso falar o mesmo de você. – Mas... Você... você veio! – Eu TIVE que vir. Não é fácil ficar lá onde estou se eu sou aqui. Você não faz idéia do espaço que ocupa aqui dentro de mim. – Espaço que ocupo? – É. Eu já não conseguia parar de pensar, agora todo pensamento meu tem você tatuado. – Você vai ficar aqui? – Sim, eu vou. Desculpe pela minha intromissão, mas eu cansei de ser um nômade a mudar de região pra região, sempre a ver...

Banho

Adentrava no banheiro um verdadeiro lixo. Não estava sujo, estava imundo. Não conseguia sequer se mover direito sem sentir a pele grudar na pele. Imundo. Tirou a roupa, mas deixou a vergonha de se olhar no espelho. Entrou no chuveiro, abrindo a torneira e deixando a água cair em cima de seu corpo. Fria no início, e esquentando aos poucos, ah, o calor artificial. Apreciava muito o frio por não conhecer o calor de verdade. Pegou o xampu, qualquer xampu, não fazia diferença. Sem lágrimas , dizia a embalagem. Hunf , pensou ele. Uma gota, fricção e espuma. Toda aquela água e espuma passando por ele. Era impossível segurar a água por muito tempo, as mãos em concha tentavam. A água passava e levava um pouco da sujeira embora, levava também uma parte dele pro ralo. Nunca ia a sujeira toda, mesmo que atrapalhasse, atrapalha a viver. Pegava a escova e insistentemente esfregava suas costas para se livrar da imundície. Sôfrego, esfregava até arder. A água e espuma que escorriam já era...