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Showing posts from December, 2003

Pausa

Ninguém nunca entendeu porque ou mesmo o que eu escrevo aqui. Logo, não ousarei tentar explicar porque estou parando. Eu posso, sim, dizer que sempre me doía um pouco quando eu me expunha aqui, e que até hoje eu ainda sinto pelo que escrevi no início, no meio e nos últimos textos. Dói porque eu sempre tenho meu coração na ponta dos dedos – para escrever ou para dá-lo a alguém. Mas a dor é o de menos, e posso dizer que não é por isso que estarei fazendo uma pausa. Devo dizer que nunca considerei o que escrevo aqui literatura, os meus pensamentos filosofia ou meus versos vis e fracos poesia – seria pretensão demais. Mas eu os vejo como algo em que ponho a palavra " meu " com certo orgulho, sem me importar com o que os outros pensam deles ou da pessoa que os escreveu. E é por isso que não vou parar definitivamente. Tampouco sei por quanto tempo eu me calarei, só sei que é importante para mim declarar que não tenho, temporariamente, uma tarefa a cumprir. Neste meio-t...

Quero distância

Na sacada, à noite. Fora a véspera de um dia que amanheceu todo branco. É algo em que sempre me vejo, em vésperas -- esperando algo melhor na incerteza do amanhã. Atrás de mim, a janela que dá para o interior da casa. Como uma televisão, eu podia ver as pessoas dentro dela mas não podia falar com elas. Eu poderia gritar e me debater contra a tela, isso não mudaria a programação. Volto-me para o céu acima de mim. Acima da poluição luminosa da cidade se encontrava o brilho de incontáveis estrelas já mortas. Senti-me tão tolo ao admirar um céu que é o mesmo ao redor do mundo e para o qual ninguém estaria olhando da mesma forma que eu. O céu que já serviu de ponto de convergência para tantos pares separados. Aquilo só me serviu para reforçar a minha solidão. Entre um ponto brilhante e outro, as luzes de aviões. Como eu quis estar ali: ou dentro de um avião ou a milhares de anos no passado, quando aquelas estrelas ainda existiam, a uma distância imensurável. Qualquer um dos doi...

Acostumando-se à dor

Todos sabemos como uma decepção amorosa atrapalha a vida racional. Não temos vontade nem de levantar da cama, que dirá de trabalhar ou estudar. O amor nas nossas vidas nos dá uma energia e motivação extras para seguirmos com nossos afazeres, mas a sua ausência é proporcionalmente destrutiva e prejudicial. Todos vocês já viram O Clube da Luta ? Se não, recomendo enfaticamente. Trago este filme à tona para fazer referência a uma cena (calma, isso não vai estragar o filme pra você se você ainda não assistiu). É aquela cena onde o personagem interpretado por Brad Pitt joga ácido na mão daquele interpretado por Edward Norton e força-o a se concentrar na dor escruciante, ao invés de tentar se distrair dela. Uma cena marcante e das melhores do filme, na minha opinião. Pois bem, eu pretendo que se aplique o mesmo princípio na vida amorosa, numa analogia que põe a dor física e a decepção amorosa como iguais (não, eu não ia sugerir que você jogasse ácido na sua mão para esquecer a d...

Despedidas

– Adeus. Demorou algum tempo até que esta palavra fizesse algum sentido para quem a ouviu, devido à perturbação na qual se encontrava. Adeus, ele disse adeus? , se perguntava como quem espera uma confirmação de um terceiro. Mas não havia mais ninguém ali. – Adeus? Você não pode dizer adeus. Aonde você vai?, perguntava em desespero. – Eu não vou a lugar nenhum. Mas você vai sumir daqui. Eu não quero mais ver sua figura patética e chorona por aqui. – Eu estou aqui há mais tempo que você. Por que devo sair? – Sei que você está aqui há muito mais tempo que eu. Mas eu o superei. Eu tomei conta. – Se eu me for... Ele teve que parar de falar. O pensamento que teve, de sair dali, era tão denso e apavorante que caiu como uma pedra de sua mente em sua boca, interrompendo sua fala. Tomou fôlego novamente, engolindo com a saliva acumulada tal idéia: – Se eu me for, você vai arruinar tudo que eu fiz e consegui até agora. – Não há mais o que arruinar. Você não consegue manter em pé o qu...

Cartas mortas

São tantas as cartas que eu escrevo. Cartas pra mim mesmo, pra ninguém. Cartas não lidas, não enviadas, não publicadas. Cartas sem remetente, sem destinatário, sem selo. Cartas escritas sem tinta no papel sem pauta. Cartas descartadas. Tudo se torna palavras desperdiçadas. Pensamentos que tomam a forma de uma letra, então uma sílaba, então uma palavra. Esta palavra se perde numa sinapse, erra o caminho e se descarrega no chão, estática e ao mesmo tempo inquieta. Como prendê-las? Com um ímã, talvez? Eles só servem para repeli-las. E mesmo que eu pudesse enclausurá-las, não há a quem mostrá-las, orgulhoso como um caçador de seu mais novo ato divino. Escrever e caçar, não tem diferença. Matar a palavra e pendurá-la no papel para se sentir um deus, para se sentir melhor, para se sentir. Ou então criar uma nova palavra, soprar para dentro de uma forma de barro uma idéia. Soltar uma frágil e débil forma no entendimento de outrem, quão cruel isto pode ser. Cruel e intrinsecamente...