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Showing posts from January, 2004

Doação

O caos de um hospital só atinge seu ápice em um hospital público. Ali, onde os que não têm onde morrer pedem que alguém os prenda à vida, foi ali que ele decidiu aparecer. Não teve problemas em passar despercebido pela recepção: estava lotada e as atendentes já tinham a quem ignorar na frente delas. Dirigiu-se a um médico que parecia estar em seu intervalo, pois sorrateiramente escondia seu jaleco no armário: – Quero fazer uma doação. – Seria muito bem vinda. Mas isso não é comigo, é com o setor de finanças do hospital. É no andar de cima, a segunda porta à... – Não é doação financeira... nada de valor que eu tenha é verdadeiramente meu. Quero doar o que posso: meus órgãos. – Xii, amigo, infelizmente aquela lei que caracterizava os cidadãos como doadores ou não-doadores na carteira de identidade foi derrubada há algum tempo. Agora, são os familiares que decidem se... – Não, você não entendeu. Eu quero doar meus órgãos AGORA. – Isso é alguma piada? Rapaz, isso aqui é um hos...

Autodecepção

Tem uma pessoa que me decepcionou nesses últimos tempos. Uma pessoa que me traiu, me enganou, me fez de palhaço. Me levou para um lugar enquanto ia para outro. Uma pessoa cujos pensamentos eu achava que tinha ali na minha frente, para serem lidos como um livro aberto. Uma pessoa que sempre simplificou as coisas para mim, escondendo tudo que era complicado (o que revelou ser muito, mais do que eu imaginava). Uma pessoa que eu achava que conhecia e achava que seria companhia para mim. Uma pessoa que, pasmem, perdeu a minha confiança, indefinidamente. Eu, que sempre confiei nas pessoas, em qualquer pessoa. Esta pessoa sou eu mesmo. Até que eu possa contar comigo mesmo, saber o que eu estou pensando, acreditar em mim, não poderei confiar. E desconfio que toda a confiança que depositei durante todo este tempo tenha sido um erro grave, muito grave.

Buscando o silêncio interior

O pior de se poder saber o que os outros estão pensando é que ninguém sabe o que você está pensando. E você tem que se calar com o pensamento dos outros na sua cabeça. Responder não faz efeito. Chega uma hora em que o silêncio faz mais sentido que qualquer frase, palavra ou sílaba. Calem-me.

Memórias do sexo

O pensamento que ronda minha cabeça nestes últimos tempos, ou melhor, a idéia, é sexo. Sim, sexo. Eu quero sexo, por que não? Eu tenho direito de sucumbir aos apelos do meu corpo também. E ele clama por sexo. Ainda mais quando eu me lembro (se é que eu um dia já esqueci algo tão marcante) das sensações. Como era bom poder sentir com minha língua o sabor da pele dela, aquele gosto que era ao mesmo tempo salgado e o mais doce dos doces que meu paladar já conheceu. Era bom sentir o seu corpo vibrar enquanto eu descobria este sabor que até hoje procuro, inutilmente, em outras coisas. Procuro também o sorriso que tinha em meu rosto naquele momento. A textura de seu sexo, que senti com praticamente todas as partes do meu corpo. O cheiro, diferente de tudo que já cheirara, o cheiro que sempre me traz boas memórias de prazer. Mas, definitivamente, a melhor memória de todas foi poder olhar nos seus olhos ao penetrá-la e poder ver o prazer que eu causava. O melhor foi poder ler sua m...

Insulino-dependente, além de outras coisas

Eu tomo, normalmente, seis injeções todo dia. Elas têm lugar fixo para aplicação, não posso aplicá-las em qualquer área do corpo. Não posso deixar de tomar essas injeções. Às vezes eu acerto uma veia quando vou aplicar, e daí dói muito. Sangra. Por vezes, a dose é expelida e eu tenho que fazer uma nova aplicação. Eu sei que pode haver uma veia ali onde vou aplicar, mas não posso evitar. Não consigo prever se a acertarei ou não. Penso nisso em todas as seis vezes diárias em que vou injetar. E não posso parar. Isso diz muito sobre a minha vida relacional.

Citação

" Ninguém mente tão corajosamente quanto um homem que está indignado. " – Nietzsche