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Showing posts from October, 2003

Natalie

E então, como é? Como é ver todos à sua volta falarem uma língua que você nao entende? Eu acho que sei, mas a sua situação ainda é pior que a minha. Você berra e chora, não de frio, fome ou sede, mas por não entender o que lhe dizem o tempo todo. E ninguém pára de falar. Você não tem forças para sair de onde está. Não tem pernas para levantar e correr, mas tem, e por isso você chora. Tem braços e mãos para derrubar ou construir tudo ao seu redor, mas não sabe como. Ou para quê. Desesperada com esta inutilidade de si mesma, você se arranha e se flagela, talvez para ter um motivo palpável para chorar. Como é agoniante ser a única pessoa que conhece o motivo das suas lágrimas, não é? É irritante ver as pessoas próximas emitirem sons e ruídos sem qualquer sentido, na esperança vã de fazê-la parar. Eles só querem que você se cale, e talvez por isso você berre mais e mais. Berre, berre mesmo. Mas por que você parou de chorar quando olhou para mim? Eu não fiz nada para merecer es...

Primeiros contatos com o frio

O frio finalmente veio. Após anos e anos querendo senti-lo nos ossos, a me roubar o calor incômodo, eu agora o conheci. Há pessoas que logo enjoam do que conquistam, por verem que isso que tanto queriam não é lá essas coisas. A tal conquista se torna coisa corriqueira e perde seu valor. Não é este o caso. O frio me toma completamente a pele, o nariz, as maos e, eventualmente, os pés, e eu continuo a apreciá-lo todos os dias como se ainda fosse o primeiro. Não faço a menor idéia de porquê eu gosto tanto do frio. Sim, é verdade que é o tempo que mais condiz com minha personalidade – ele, de uma certa forma, induz um comportamento mais calmo, quieto e por vezes chega a causar até depressão. Mas como poderia eu adorar tanto algo que nunca havia sentido e vivido? Seria talvez uma associação a coisas ruins que eu fizera ao calor, que me faz procurar seu oposto? Por enquanto não me ocupo em tentar responder estes questionamentos. Estou vivenciando uma felicidade diferente, proveni...

Embarque

Escrever sobre isso não é fácil. Quanto mais perto as palavras certas passam pelo que estou sentindo, maior é a... é algo que não é dor, bem diferente. Talvez seja a emotividade. A manifestação física mais forte é a vontade de chorar: o nariz arde como se respirar fosse nocivo e os olhos marejam. O pior é ter que engolir tudo isso e continuar escrevendo, o tempo urge e me avisa, faltam três minutos! As palavras tocam no que sinto como uma agulha que toca de leve um nervo exposto. Ao mesmo tempo que incomoda, é inevitável continuar a fazê-lo. Logo, ter contato constante com o que se sente e conseguir colocar tudo isto em palavras é pedir para viver uma emotividade à flor da pele, tão à tona que todos poderiam ver. Mas não vêem.

Antes da viagem

Eu passei tanto tempo pensando se o que vou fazer é algum tipo de fuga. Todos dizem que é o que gostariam de fazer quando as coisas não vão bem. Não posso negar que já quis muito fazer isso, quando a fuga fazia realmente sentido. Mas agora... agora eu não precisava de uma fuga dessas. As coisas estavam indo bem, tinham tomado um rumo diferente para mim. E vejo que esta "fuga" além de desnecessária é indesejada. Não, não é mais uma fuga. É uma provação. Uma provação para mim, que vou descobrir algumas coisas sobre mim mesmo. Uma provação também para tudo que eu acho que conquistei nestes últimos tempos. Saberei se estas coisas são sólidas o suficiente para que eu possa me apoiar nelas no futuro ou se se desmantelarão ao primeiro sinal de mau tempo. Eu parto sem saber para onde voltar; o que será que chamarei de lar? Quem serão as pessoas que, mais do que farão parte dele, SERÃO ele?

Falta

Um pedaço de madeira no meio da sala. Um pedaço de um tronco, que um dia já fora uma árvore esplendorosa, oferecendo abrigo do sol. Mas o passado não importa; ele agora era este pedaço de tronco. Era simples, muito simples, a ponto de ser rústico. Servia por vezes de assento, ou de peso para segurar a porta, ou apoio para alguma criança que ainda engatinhava começar a se levantar. Numa destas, o tronco foi derrubado e a criança conseguiu se manter em pé, de forma que todos ficassem exultantes com o êxito do pequeno infante, não notando que o tronco rolava pela porta afora. Por que deveria ser notado? Era apenas um tronco. Ninguém nem sabia como ele foi parar ali ou quem o trouxera. O que se seguiu foi que por alguns dias se sentiu falta daquele tronco na sala. Não porque era uma peça importante na decoração ou porque sua função era imprescindível à casa. Era, sim, porque era algo que estava o tempo todo ali, e de repente não estava mais. Todos estavam acostumados a ver o t...

Quebrando as barreiras

Impacientes, todos quebram as paredes. Alguns derrubam os tijolos um a um, outros vão derrubando-as a marretadas sem maiores cerimônias. E são muitas paredes, uma atrás da outra. Por trás delas, preso, um garoto que não sabe se quer ser liberto. Ele fica ali, sentado, desviando das lascas de tijolo e dos pedregulhos, desejando o fim de todo esse alvoroço. Ali, pálido e assustado, ele se lembra de como foi parar ali. De sua infância. De como sua mãe, querendo ter um pouco de sossego à noite para ler, colocava um pouco da vodca que ela tomava – para aturar as mentiras do casamento – em seu leite. E seu pai, querendo o mesmo sossego para ouvir seus vinis de Chico Buarque, colocava um pouco do uísque que ele degustava toda noite. Ele bebia essa mistura diariamente, acordando sempre com uma dor de cabeça estranha que o impedia de ser hiperativo como as outras crianças. A vodca também o deprimia um pouco, logo ele preferia ficar quieto na sala, observando todos que por ali passav...

Tanto escritor no mundo

Talvez nossas vidas sejam mesmo como livros em cujas páginas escrevemos o tempo todo. Ou melhor, não o tempo todo. Existem pessoas que escrevem neles. Muitas pessoas ou poucas pessoas, não importa. São páginas que não esquecemos, que até parece que vivem com marcadores, pois quase sempre que abrimos este livro para dar uma folheada, abrimos nestas páginas. Algumas pessoas que escrevem a lápis. Dependendo de como este lápis foi apontado, os traços são fortes e grossos, feito com uma ponta rombuda e descuidada. Ainda assim, passíveis de serem apagados se necessário. O que não é tão possível se a ponta for muito fina e afiada. Traços finos e quase invisíveis, sim, mas se feitos com força podem rasgar o papel. Outras pessoas escrevem a caneta. Traços praticamente indeléveis, alguns até tóxicos, dependendo da tinta. Alguns podem ser retirados com álcool, mas corre-se o risco de arruinar o papel e até o livro inteiro. E sempre fica um pouco da tinta borrada no papel. E existe um ...

Terapia

– Pele de algodão, um alfinete. – É um pesadelo que você tem? – Não, não... – Uma sensação? Alucinação? – Não! – Você imagina o alfinete furando sua pele? – Esqueça. O psicólogo escutava atentamente, mas não ouvia nada. Já perdera a conta dos psicólogos que visitara, e era sempre a mesma ladainha. Tudo corre bem até a sétima, oitava sessão, quando ele já tinha confiança o suficiente para contar algo mais profundo, algo que o atormentava. Talvez ele esperasse que o ignóbil do analista arrancasse aquilo da mente dele com a mão. Mas não, eles não sabiam o que fazer com aquilo. Eles não sabiam o que era aquilo. Saía irritado da sala, deixava um cheque na recepção no valor de algumas sessões e nunca mais voltava. Nunca deixava telefone para contato para que eles não lhe ligassem procurando. Pegava novamente a lista do CRP (Conselho Regional de Psicologia) e escolhia um nome a esmo. Não procurava psiquiatras. Não queria remédios, tinha ojeriza a eles. Os remédios não o fariam d...