Casal - Parte II

Ela se recompôs, pegou seu cigarro que havia caído no chão e continuou, decidida a não sair dali sem vê-lo despedaçado:

– Você quer definir o nada, então? Porque é isso que há entre nós.
– Se não houvesse nada, você não estaria aqui.
– Eu sou mais desocupada do que você pensa. Estou aqui mais pelas piadas que você está a me contar do que por você.

Começava a perder seu equilíbrio, o coitado. Não havia como se manter em pé, nem fisicamente nem mentalmente. Titubeava, tanto em sua fala patética quanto em seus pensamentos abalados:

– Mas... você disse... você estava...
– Eu nunca disse nada, seu idiota. nem estive qualquer coisa em relação a você.

As lágrimas começavam a querer sair de seus olhos ardendo em chamas. Se pelo menos ele tivesse guardado alguma para aquela ocasião... Teve de juntar os últimos resquícios de forças que tinha para falar o que lhe levou os últimos meses para formular:

– Então... o que você quer de mim? Quer que eu suma? Quer que... eu morra?

Ela o olhou com espanto. Ficou séria, abandonou sua postura e o cigarro e se aproximou dele. Sempre olhando-o nos olhos, cada segundo mais próxima do corpo dele. E a cada segundo o coração dele batia mais depressa, mais forte, talvez fosse parar. Seus lábios estavam a milímetros de distância, era tudo que ele via, aqueles lábios que ele tanto desejou, por tanto tempo.

E por um décimo de segundo ele virou seu olhar para os olhos dela, e viu toda aquela ilusão se dissipar. Suas pupilas se contraíram involuntariamente, pois ele vira o sorriso cruel em seus olhos insensíveis. Se eram uma janela, ele nunca vai descobrir, pois tudo que sempre viu foram cortinas pesadas e escuras.

Ela o empurra ao chão, sem usar muita força. Não era necessário. Qualquer sopro o faria desmoronar naquele momento, e ela sabia disso. É hora de acabar com isso, pensou ela:

Eu não me importo com você o suficiente para querer que você morra.

Ela sai da sala, vencedora. Um coração em suas mãos como troféu, para compensar a falta do seu próprio. Só lamentava a falta de uma platéia para congratulá-la por seu nocaute fulminante. Mas sempre poderia contar para alguém, para suas amigas amargas, que tanto gostavam de suas histórias.

O homem não conseguiu se levantar. Não conseguiu nem fechar os olhos, em tal estado de catatonia estava. A frase dela ainda ecoava em sua cabeça. Nem ouviu a porta de fechar. Não conseguia respirar, reagir, levantar. Não queria. Não quis. Nunca mais. Chega.

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