Casal - Parte I

Um casal. Uma sala vazia. A sala predicava os sujeitos e concordava completamente com eles, iconizando sua relação.

O homem se mostra nervoso, às vezes até irritado. A situação não o agrada, apesar de fisicamente ele estar bem. Ao mesmo tempo em que ele quer olhar para a mulher, a sua visão lhe dá reviravoltas em sua mente, parecidas com a que eles passaram juntos.

A mulher está morta. Pelo menos aos olhos dele. Não esboça uma reação a sua presença, ao fato de eles estarem ali, sozinhos. Ela parece não se importar com todo o tempo dispendido naquela relação, nem com tudo que ele fizera até ali para estarem juntos naquele momento. Acende um cigarro e coloca o braço em volta da cintura, numa postura desafiante, e pergunta deixando as palavras caírem ao chão para ele ter de abaixar para pegá-las:

– O que você quer afinal?

Ele não acreditou quando ouviu aquela pergunta. Ela estaria se fazendo de retardada, por acaso? Não lembrava tudo pelo que eles passaram até agora, perdeu a memória de repente? Controlou-se. Gritar e perder o controle não funcionou antes, não ia funcionar agora:

– Eu achei que tinha deixado isso claro quando marquei esse encontro.
– Não deixou. Você vai falar? Porque se não for, eu vou-me embora.

As ameaças. Ela sabia como elas o afetavam. O machucavam como empurrões a seu corpo debilitado e quase sem reação. Doía, mas ele aprendeu a driblá-las:

– Quero definir o que há entre nós, de uma vez por todas.

Ele prestava mais atenção nela do que em si mesmo quando disse aquilo. Cada respiração, cada movimento dela. Procurando por algo que a denunciasse, que mostrasse o que ela sentia. Tolo, ele repetia a si mesmo, tolo. Ela nunca vai reagir.

Mas ela reagiu. Como ele esperava. Uma risada sonora e cheia de escárnio e crueldade. Uma risada tão marcante que substituiu algumas lembranças boas que ele tinha em sua mente cansada e surrada. Marcou suas memórias a ferro quente. Nesse ponto ele achou que ia morrer, um ataque fulminante, um derrame, não é possível, esse corpo não vai agüentar. Para sua surpresa, ele continuava até em pé. Não demonstrou reação, como anos de surras o ensinaram a fazer.

Ela se recompôs, pegou seu cigarro que havia caído no chão e continuou, decidida a não sair dali sem vê-lo despedaçado...

Continua...

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