Fluxo de consciência

Escrevia ensandecidamente, sem mesmo parar para consultar no dicionário como se soletrava a palavra ensandecidamente. Era febril em sua ação. Ele não parava nem mesmo por solicitação de seu corpo, a lhe chamar a atenção com alertas de dores nas costas, na mão, na vista. Ignorava seu próprio corpo como fazia com as pessoas que se aproximavam, ou melhor, tentavam. O pensamento era tão furioso que as idéias faziam barulho ao cair no papel, onde iam formando um desenho ortográfico nada ortodoxo.

Ele não seguia ordem alguma ao escrever. Algumas palavras soltas no topo da página, mais algumas no meio, outras no fim. Era um mosaico confuso no papel, algo sem forma ainda. Era isso que o incomodava. A imagem estava em sua cabeça e ele não sabia como pari-la.

– As letras, as letras não fazem sentido algum!! Jogo-as no papel e não fazem sentido, tenho que embaralhá-las, catar uma a uma e colar... não quero! Quero esparramar as letras e deixá-las seguirem o acaso, que é mais consciente que eu.

De repente larga o papel, que já estava cansado de tanto contato com as mãos úmidas e doloridas. Joga o lápis longe, nem sabe onde foi parar, talvez num desses limbos que sugam os objetos e a vontade das pessoas. Tinha um objetivo, instalado na mente no momento que levantou da cadeira. Como era possível que ele mudasse tão rápido de tarefa? Nem ele entendia, e não havia tempo para isso agora. Precisava de dinheiro.

Tudo que precisava era de um banco e uma ilusão, pois não tinha uma arma. Precisava acreditar no que iria dizer. O banco apareceu na sua frente, como que por conveniência. Entrou, ou pelo menos tentou, pois a porta travou. Chaves, celular, tirou até o cinto. Lá dentro, não sabia direito a quem se dirigir. Foi até o gerente, mas este parecia ocupado demais e ele não queria pegar uma senha. Os caixas também estavam inacessíveis por detrás de uma grossa lâmina de vidro e uma turba impaciente de pessoas. O guarda não parecia amigável, pois só se viam seus olhos desconfiados por meio de uma fresta na pesada plataforma de metal. Foi falar com a servente.

– Isto é...

A mulher parou humilde na sua frente, esperando alguma ordem ou bronca.

– ...um...
– Pois não?
– ...lápis?

Se viu no quarto, sentado na mesma cadeira, o brilho do monitor na sua cara, o papel ainda gritando na sua frente, implorando para que parassem de arranhá-lo. O lápis na sua mão, mal equilibrado entre o polegar e o lado de sua mão. O texto tinha que ser terminado. A imagem ainda não estava pronta.

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