Anjo?

– Terminei de fazer o que você me pediu.
– Ah, obrigada. Você é um anjo.
– Não, não sou.
– O que eu posso fazer para retribuir?

Ele vai até a cozinha e volta com uma faca. Uma grande, afiada, reluzente. Do tipo que serve para cortar pulsos e carnes.

– Toma. Me mata.

Ela fica absolutamente sem ação. Como assim matá-lo? Ela olhava para ele e para a faca, sem saber o que fazer. Sua vontade era de estapeá-lo e abraçá-lo ao mesmo tempo. Ela grita, simplesmente por não ter alternativa:

– O quê!? Como assim te matar? Eu... agh... arrr... me diz...

Ele a interrompe.

– Tsc. Ah, esquece.

E volta pra cozinha, levando a faca. Ela serviria mais tarde para fatiar alguns legumes. O jantar começaria a ser feito daqui a pouco. A mulher, ainda atônita, acompanha-o com o olhar. Sua cabeça não tinha como mandar qualquer comando para suas pernas, devido à informação pesada e difícil de digerir que recebera. Ele volta com um sorriso no rosto e ela consegue esboçar uma reação e segurá-lo pelos braços. Olha em seus olhos e não vê nada. É tão estranho. Era de se esperar que ele estivesse triste, que estivesse chorando. Que demonstrasse alguma coisa. Mas o sorriso doce dele estava de volta em seu rosto. Ela até pensou em indagá-lo sobre o que ocorrera há alguns instantes, mas tudo parecia tão normal! Será que valeria a pena mexer em algo que parecia tão estável, tão bem? Decidiu deixar pra lá e ir cuidar de outras coisas. Se ele quisesse conversar sobre isso, ele a procuraria.

Não a procurarei, disse ele baixinho, a si mesmo, e não houve quem pudesse ouvi-lo, nem ver suas lágrimas que se derramavam por dentro. Nunca houve.

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