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Showing posts from June, 2003

Diálogos - III

– Oi. – Oi. – Você parecia meio nervosa ontem. Está melhor? – Sim. Um pouco. Decidi falar com ele sobre toda essa questão. Não dá mais pra mim. – Eu concordo. Não é uma situação muito confortável, mesmo. – Ele podia corresponder mais, sabe? – Claro. Você não deveria esperar menos dele. Qual a sua culpa num problema que ele teve? – Nenhuma, exatamente. – Ainda mais que tem mais gente por aí que pode te corresponder. – Deve ter, não sei. Eu gostaria que ele me correspondesse. – Eu, por exemplo. – Hã? – É. Eu. Tenho atração por você. Mas não se preocupa. Eu entendo como essas coisas funcionam e sei que você não tem atração por mim. – Mas... – Não se preocupa. Você me procurou primeiro, eu interpretei errado. Isso acontece comigo. Não encana. – Por que você nunca falou isso antes? – Eu não consigo falar. E você não está ouvindo isso. Você está lendo. – É... – Daqui não vou ver reação nenhuma sua, por isso dá pra ser direto. Você não vai precisar me rejeitar, eu já incorporei e...

Ousadia

No meio de todos eu não consegui me ver. Todos tão preocupados em mostrar algo físico, algo óbvio para o olho atento. São todos estudantes de publicidade, querendo divulgar algo que está mais do que claro? Sim, vocês são bonitos, seus corpos esculpidos, mas o que há dentro deles? Simples órgãos, sangue e plasma? Tecidos? Eu quero ver o que vocês sentem. Eu quero ver o que vocês pensam. Eu sou mais ousado que um legista, quero lhes expor ao extremo inimaginável! Quero ler o segredo mais escabroso, quero ver se existe amor como o meu dentro de mais alguém, ou se sou eu o único a hospedar um sentimento totalmente alienígena. Mas é claro que não dá. A ignomínia domina, vocês não conseguem sentir o quão inofensivo eu sou, que eu não represento simplesmente nada. Eu sou apenas uma paisagem, não tenham medo de mim. Se exponham a mim como fariam a um espelho – não, não um espelho pois um espelho tem olhos julgadores. Eu não tenho olhos, ouvidos ou sentidos. Não tenho língua, não t...

Chega!

Acabou. Acabou, cara. Apaga a luz, fecha as portas, tranca a janela. Avise os parentes, os amigos. Congratule os inimigos, que de tão patético você não tem nenhum. Feche todas as janelas lindas do seu computador, feche as imagens belíssimas que você recebeu. Feche os programas de áudio que davam algum sentido ao nada. Que faziam vibrar todo este ar a sua volta e também as idéias na sua cabeça. Feche tudo, desligue o computador, desconecte-se das pessoas. Desconecte. Chega de colocar as coisas pra fora, elas não acabam nunca. Você, com esses textos, está tentando retirar a água de dentro de um navio furado com uma colher. Você vai afundar de qualquer jeito . Chega de falar de coisas que não interessam a ninguém, nem mesmo ao seu umbigo. Você sabe que se vê com reprovação quando demonstra que não consegue ser como os humanos. Então pare. Por que você não tem medo do desconhecido, do diferente? Por que está sempre se jogando desse jeito, sem redes, sem qualquer garantia? Semp...

Vontade

Eu me pego andando sem querer andar. Falando sem querer falar. Sorrindo sem querer sorrir. Comendo sem querer comer. Dormindo sem querer dormir. Beijando sem querer beijar, abraçando sem querer abraçar. Eu poderia fazer uma lista enorme do que estou fazendo ultimamente sem a menor vontade. Mas, enfim, estou vivendo sem querer. Estou apenas dando eco às palavras que ouço e leio porque sei exatamente que palavras são pedidas naquele momento (ou acho que sei). Não é de propósito, mas eu não tenho coragem de impor meu estado aos outros. A única coisa que quero fazer no momento é ouvir música. Sem prestar atenção na letra, apenas sentindo a mensagem que a melodia me traz, ou melhor, que minha mente interpreta. E então me imaginar numa pradaria bem fria. Totalmente isolado, apenas a música em meus ouvidos e o horizonte nublado e cinzento nos meus olhos. Talvez um dia eu ache esse lugar que povoa meu desejo e onde eu nunca estive. Melancolia.

Internet

Antigamente a internet era uma pequena rede usada apenas por universitários (provavelmente da área de computação – não me perguntem detalhes). Era tão legal acessar aquele mundo que já parecia enorme pelas velhas e boas BBS's. Não existiam páginas de busca como as que existem hoje, que vasculham praticamente cada bit de todas as páginas atrás daquela informação que você procura. Então quando achávamos uma página legal, era como descobrir um tesouro; guardávamos o endereço em livrinhos de endereços que eram como verdadeiros livros de receita. Visitávamo-las com a maior freqüência possível (uma vez a cada dez dias – uma heresia de tão pouco para os padrões de hoje). E tínhamos o maior cuidado com o que fazíamos enquanto estávamos online. O temor de ter nosso servidor BBS banido daquele mundo era grande, pois os olhares furiosos dos outros usuários se voltariam com certeza a nós. E passou-se mais tempo, ganhamos acesso à internet por um servidor maior (500 usuários – uau...

Certeza

Eu não tenho certeza de nada . Nada. Eu não tenho certeza se sei ler. Se sei escrever. Se sei nadar. Não tenho certeza se sei fazer contas. Não tenho certeza do que sou, se sou ou se estou. Não tenho certeza se sei o que é um aminoácido, uma força vetorial, um cateto. Não tenho certeza se sei quem são as pessoas ao meu redor, se elas estão realmente ao meu redor ou só passando ao meu lado enquanto eu ando. Não tenho certeza de minhas memórias, se já fui criança, se já brinquei num parque. Não tenho certeza se sei o que significam as palavras, eu não tenho certeza se elas significam ou se são só invenções estapafúrdias do homem, criadas para entreter durante o nosso curto tempo de existência. Aliás, tem uma coisa de que eu tenho certeza. Porque eu não tenho certeza se eu não tenho certeza. Mas eu tenho certeza de que vou morrer. Eu queria dar uma certeza pra vocês, aí está: eu vou morrer. Fora isso, não tenho certeza de mais nada. E me admiro das pessoas que têm tanta certe...

Dilema

Estou num dilema: se eu cortar os pulsos, como irei escrever? Estava precisando escrever algo bem depressivo, colocar esses monstros pra fora, mostrar uma tristeza profunda. Porque na vida real eu só mostro o lado agradável, a simpatia, a cordialidade. O perfeito cidadão inserido na sociedade. Mas voltemos à depressão, para que eu possa me esvaziar de tudo. É engraçado que sempre pensam no depressivo como um suicida. Não é. Ao depressivo sempre vai faltar a energia, a coragem, qualquer coisa que o motive a fazer algo tão importante e dramático como abrir seu peito e deixar a vida se esvair. Ele sempre vai vacilar no último momento, perder a firmeza com a lâmina, procurar um antídoto, ligar para alguém. Tolo . Imbecil . Fraco . E ele ouve tudo isto, mesmo que niguém diga. Ele vê nos olhos do médico, dos pais, dos amigos. Mais combustível para a depressão. Talvez devesse se isolar completamente, perfeitamente. Sem qualquer estímulo, o que acontece com os sentimentos? Eles param? Vão embo...

Frio

Frio. Frio. Frio demais. Não faz aquele frio gostoso, que me ativa a circulação e anestesia a pele, mas um frio maligno, que me dói os membros e me lacera por dentro. E agora me dei conta que as cobertas não têm efeito algum, pois não tenho calor pra ser conservado por elas. Talvez se eu fechar a janela... Não. A liberdade vale a pena. Que entrem coisas erradas, porque eu sei que não existem coisas erradas. Não existe erro. Não sei por que me atormentei tanto no passado, todos aqueles erros, eles valer... grunf, eu nem consigo dizer isso. Ainda não cresci o suficiente. Eu deveria poder dizer isso sem medo, mas não consigo. Tenho muito a crescer, a aprender. Aprender, apreender, prender. Há muito que eu deveria ter prendido, e ainda há muito a prender. Não posso ficar me desprendendo por aí, desprendendo e perdendo partes. Por outro lado eu não quero qualquer forma de compleição. Solto por aí, estou em todo lugar e em lugar nenhum e ninguém jamais saberá onde estou. Num ato de esquizofr...

Parapeito

Cá estou no parapeito da janela da sala. Uma janela perfeita, que dá vista para o parquinho das crianças. Uma janela para a infância. Sempre que acordava aflito e sobressaltado, geralmente despertado por uma lembrança da minha condição – que se manifestava como lanças em minha perna ou debilidade e tremores em um corpo já frágil, me mostrando o quanto eu estava perto de parar por completo –, eu me dirigia à sala, à janela. Ver toda aquela calmaria e silêncio me fazia pensar em todo aquele nada que existia ao meu redor. Claro que à época eu não o sabia; a associação, faço-a agora. Hoje eu voltei a esse velho parapeito, para ver o nada. O mesmo nada que me cercava na infância, é o mesmo que me cercou na adolescência e que me oprime agora. Este nada é uma verdadeira muralha sem fim. E uma muralha sádica, que permite que eu atravesse partes de mim por ela, mas que não deixa as partes de outrem chegar a mim. E é por isso que escrevo aqui. Porque sei que essa muralha ainda está de...

Mocking

A poeira baixou. A razão não bate forte, mas mina o emocional aqui e ali, de quando em vez, para chegar um dia e tomar o controle à força. Tomou. Ainda há uma certa revolta, ainda me pego soluçando borboletas por aí. Daqui a uma eternidade eu melhoro. Cicatriz nova, velhos sentimentos. O que me incomoda é a incompetência do racional. Quer dizer, não exatamente incompetência, mas sua limitação física. Ele não é grande e alto o suficiente para alcançar todos os livros que tenho em minha estante. Fico preso na hora de escrever, as palavras riem de mim: 'você não nos conhece, você não nos alcança!'. Malditas. Tenho que me contentar em lê-las em outras mentes.

Visibilidade

E o choro me visita novamente. Desta vez eu o deixo correr pela sala livremente, pois não há mais necessidade de temer ser visto. As pessoas não me vêem mesmo. Mesmo porque eu não estou vivo quando elas me olham. Ou então talvez eu não esteja suficientemente nesta realidade. Pode ser que eu esteja passando pela vida das pessoas como uma brisa, um sopro bom que traz conselhos e que leva embora as angústias. Só não sei onde deixá-las, pois o peito não comporta mais. Eu só consigo enganar convencer a mim mesmo. E por causa disso toda opinião contrária me parece tola e desinformada, baseada em roteiros comuns demais para se identificarem com o meu. Mas até as ilhas mais fortes sucumbem à maré. Não dá mais. Eu poderia continuar à tona combatendo os que tentam me afundar, se pelo menos houvesse alguém que me dissesse que queria que eu continuasse respirando. Não há, e acho que não haverá. O sonho morre por agora, para de sua carcaça nascer algo mais simples e realista. Resta-me encher o pul...

Inquietude

Quantas vezes eu já não estive aqui? No entanto eu sempre me esqueço de como se faz pra sair. Acho que talvez eu nunca saí, só o labirinto que mudou de paisagem e eu achei que estivesse fora dele. A possibilidade de estar num lugar só por todos esses anos me deixa... aturdido. Isso explica minha eterna urgência em me mover, e rápido. Pra qualquer lugar. Sempre na maior velocidade possível. Eu quero sair. Era isso. Eu quero sair. Talvez se eu fosse rápido o suficiente, não houvesse como as coisas me alcançarem. As pessoas, os carros, os fatos. Eu só quero sair de um lugar que não tem portas, não tem janelas. E não os tem porque não há paredes ou teto. Nem chão. Então, como se mover? Não há contra o que gerar atrito para garantir movimento. Não há contra o que eu bater para gerar uma reação. Estou fadado à inércia. Também não há ar para fazer propagar meus gritos. O silêncio reina neste lugar, e eu chego a pensar que estou surdo. Não tem luz, e eu estou cego. Esse lugar é real, pelo meno...

Carta ao fim

Então, amigos, eis que vocês me encontram nestas palavras. Palavras soltas nesta carta deixada na mesa, ou em cima da cama, sem fazer questão de ser notada. Tudo que digo aqui não poderia ser dito em outra ocasião; do contrário, nunca agüentaria encará-los, não gostaria de saber de suas reações. O que faço aqui é me expor. Talvez mais do que os legistas ousaram fazer. Engraçado que eu sempre estive na frente de vocês, ao lado, atrás. Sempre por perto. Mas vocês nunca me viram. Não sabem que direção toma o meu sangue quando ele se perde aqui dentro. O que vai ser lido aqui é o que reinou irreprimido na minha cabeça intranqüila. Se assustem. É o mínimo que espero, visto que vivi assombrado por isto. Eu não fui apegado a muita coisa. Neste fim de vida, de pouca coisa fiz realmente questão. Tanto faz um copo de água quente e suja ou uma taça de vinho tinto seco. Tanto faz um prato generoso feito com temperos exóticos e custosos ou um pedaço de pão velho e duro, que mais serve p...

Pensamentos fugazes e sem desenvolvimento

Covardia é sonhar com você e não tê-la ao meu lado para te contar tudo, contar os detalhes, sentir cada reação e sorrir. --- Uma pessoa considerada normal é qualquer um que não tenha a palavra utopia na definição de nenhuma palavra da sua realidade vocabular.

In-sono

E o maldito sono que veio, deixou um recado na minha porta, mas sumiu? Deixou também um pacote, parecia ser de comer. Arrisquei, não estava com fome mas a língua falou alto. Tinha gosto de caqui. Horas depois, percebi o erro que um sentido me levou a cometer. Tremores. Pensamento confuso. Sensibilidade exacerbada. Eu estava eu mesmo elevado ao cubo. Difícil andar entre as pessoas deste jeito. Não queria machucá-las com espinhos sem controle, e não queria ser corroído pela pele ácida delas. Inútil fugir. A confusão de raciocínio me faz me aproximar dos cáusticos incautos. Eles falam sem pensar, eu penso sem falar. Ouço o que não espero, não falo o que quero e todos saem impunes. Tento me situar, as pernas pedem alforria, pedem mais sangue. A mente drena tudo. O corpo perde pontos, perde partes e se parte. De volta à oficina. E desta vez estarei espreitando o sono atrás da porta.

Aimer haïr

Qual a diferença entre as palavras gostar , adorar e amar ? Eu não acho a distinção entre elas tão significativa. Elas não traduzem o que sinto. Eu deveria talvez inventar palavras novas para cada sentimento. Não, melhor: uma palavra para cada grau de intensidade de cada sentimento. Ninguém entenderia, pois eu estaria falando palavras estranhas, e as pessoas nunca ficam tempo suficiente para aprender o sentido delas. Interessante que na língua francesa, ou melhor na cabeça dos falantes de língua francesa, não há esta distinção entre gostar e amar. Ambas são representadas na palavra aimer . E o melhor é a semelhança entre esta palavra e a palavra que traduz o sentimento do ódio: haïr . Quando conjugadas, elas têm quase o mesmo som, vejam: j'aime [jême], je haine [je êne]. Isso na cabeça de uma pessoa significa muita coisa; é como se amor e ódio fossem sentimentos próximos. Talvez sejam. Vai depender muito da pessoa que sente.

Nada

Vou ali me afogar Talvez não voltar Tão bom privar O pulmão de ar Sentir queimar Na água fria Para encerrar O dia Que dia! Put on my cardigan to leave the cold inside Put on my cardigan to stop the world outside

Diálogos - II

– Agora você passou dos limites. – Não começa. Me deixa, vai. – O caralho que eu te deixo! Eu te deixo há muito tempo já! Você vai sair agora, não pode ficar se escondendo pra sempre. – Posso. Já o fiz até agora. Já o fiz durante anos e ninguém reclamou, ninguém notou. Vai, me deixa, preciso me proteger. – Proteger, proteger. Sempre essa ladainha. Você nunca terá defesas desse jeito. – Defesas? Não preciso delas. Não se ficar no meu canto. – Ilusão sua. No seu canto mesmo você já foi atingido, e de forma quase letal. Você precisa de defesas. – Digamos que sim. Como terei defesas? Vou criá-las do nada? – Eu vou te forçar a criá-las. Vou bater em você. Vou te jogar contra a parede, te socar, te chutar. Te jogar por aí em qualquer canto, qualquer um. Você vai apanhar muito. – Mas... – Mas nada! Cansei de ter que te esconder no seu canto, de inventar respostas inteligentes pra você se sentir bem com um elogio. Agora eu vou te jogar no mundo, meu caro. Vai ter que enfrentar tudo, cada espi...

Expressão (d)escrita

Eu penso em estrofe Começo a me declarar Mas sei que as pessoas Vão se perder Não conseguem entender Não entendem o pensar E eu só consigo Escrever Não tenho coragem De me expressar Pelo teor das palavras O que quer que tu abras Ainda haverá O que abrir Existe tanto A descobrir