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Showing posts from August, 2003

Pode sem querer?

O tempo todo me dizem que eu não posso. Eu não posso . Eu não posso. Eu não posso. Não são só pessoas que me dizem isso. Por vezes, a própria situação me diz isso. Mas, claro, nada é tão pungente quanto uma voz, uma pessoa me dizer, você não pode . E qual o efeito disso tudo? Acaba que eu deixo de querer. Meu querer já é fraco e débil, e facilmente sobrepujável pelo querer dos outros. De esmagado para inexistente não demorou muito. Uma pessoa sem querer, sem desejo, sem pulsão, o que é? Será que ainda é humano? Talvez eu tenha me tornado uma máquina. Uma máquina a viver automaticamente, servindo ao desejo dos outros por não ter um próprio. Talvez eu me case por conveniência, tenha filhos por simples inércia, trabalhe por dinheiro, viva por não saber morrer. Batendo ponto. Não que eu pense que bater ponto no emprego seja algo ruim. Mas fazer isso na vida já é um pouco demais.

Imensidão de gente sem alma

Eu ando pelos corredores do meu dia-a-dia e vejo pessoas o tempo todo. É incrível como as outras pessoas não vêem, elas simplesmente passam por nós olhando para frente e vendo a si mesmas. Neste sentido eu sou menos introvertido que os outros pois sempre vejo quem passa por mim. Passam sem prestar a menor atenção. Então sinto um ímpeto de chamar a atenção. De fazer as pessoas verem que tem alguém ali passando por elas. Imagino-me num palco enorme, em um estádio. Tocando todos os instrumentos, cantando e finalmente gritando. Será que assim me faço notar? Talvez eu devesse apelar para a fútil destruição de tudo no palco. Jogando a guitarra nos amplificadores, jogando o baixo na bateria, furando peles e derrubando pedestais. Tudo isso frente a uma platéia inexistente, em um estádio vazio. Talvez meu palco seja isto aqui. É aqui que eu grito, que me faço notar. Vivo aqui entretendo vocês, preocupando vocês, deixando vocês tristes, melancólicos, destilando meu pesar em viver. ...

Filas

Se você parar pra pensar nas relações amorosas, verá que tudo não passa de uma fila. Uma enorme fila. Mas é claro que não estamos todos em uma única fila, todos nos dirigindo a um lugar só. Cada um de nós pode ser o destino de uma dessas filas, que pode conter inúmeros indivíduos. E cada um de nós pode estar em uma fila diferente, independente de sermos o destino de uma fila. Vamos exemplificar. Na fila da garota A existem os garotos A, B e C e (por que não?) uma garota B. O garoto B está no primeiro lugar da fila, mas a garota A está interessada no garoto D, que, veja bem, nem está na fila! E então ela ignora as investidas do garoto B e faz de tudo para que B saia logo do primeiro lugar da fila. Talvez o garoto A perceba toda essa confusão e saia logo dela. Ou talvez não perceba e continue persistindo. E a garota B nem sabe que o garoto D, na verdade, não está interessado nela e está em outra fila. É como aquele poema do Drummond , só que num universo bem maior e com mui...

Um minuto

Por um minuto eu gostaria de ler seus pensamentos. Queria lê-los cruamente, sem qualquer barreira de convenções sociais ou etiqueta. Esqueça a educação. Por um minuto. Queria saber se você pensa em mim quando falo com você, ou se está a pensar na assunto no qual discorre. Queria vasculhar e descobrir se você já pensou em mim. Você já pensou em mim, por um minuto que fosse? E, se já tiver pensado, você o fez com alguma intenção? Por um minuto, eu queria saber se você pensa como eu penso, se você pensa. Um minuto, eu lhe daria este minuto de bom grado se você me pedisse. Peça. O que você faria comigo em um minuto? Você fará o que as outras fizeram? Então que pelo menos troquemos; eu lhe darei este meu minuto e você me dará algo que quero, que descobri que quero há algum tempo. Quero um pensamento seu para mim, para que eu possa moldá-lo, transformá-lo e subvertê-lo à minha vontade. Sei que será um pensamento irreal e falsificado; mas terei de me contentar, esse pensamento qu...

Beijo

Beijo. Um beijo. Qual é o beijo que você manda? Talvez o beijo simples, na face, o beijo que se dá a um recém-conhecido. Um beijo paternal ou maternal, na testa. Dois ou três beijos, dados nas bochechas, desejando sorte, casamento; crendices e tradição. O beijo no topo da cabeça, para sentir o perfume dos cabelos. O beijo dado durante o abraço, no pescoço, já suscitando algo mais. O beijo nos lábios, o leve encontro dos lábios, ainda na tênue linha da amizade. O beijo sem lábios, apenas com a ponta dos narizes se encontrando, a convergência de olhares. A língua na língua, a língua na pele, o querer sentir seu gosto, de olhos fechados. O beijo no colo, querendo beijar o coração e sussurar a ele, eu vou amar seu dono, e não vou te machucar . Qual é o beijo que você manda?

Infini...

Ele dirigia pra qualquer lugar. Nem se lembrava de ter acordado ou de ter pego as chaves do carro. Quando se percebeu e viu que estava vivo, encontrou-se dentro do carro. Como fora parar ali? Talvez a vontade de sumir estivesse tão forte que ele de fato sumira por alguns instantes. Ou então o vinho. Sim, o vinho a mudar o sangue e alterar a percepção. Tomou o vinho com o intuito de não perceber que estava sozinho. Mas estava, e num carro em movimento. A pista não era pista. Era oceano. Brilhava como um, pelo menos, à luz dos postes e dos faróis. Seriam faróis de carros ou faróis de porto? Não sabia mais. Não importava mais a cidade em que estava, qualquer lugar que fosse, ele não caberia ali. Estava nostálgico por ver toda aquele luz no chão ao invés de no céu. Lembrava-se de viagens em silêncio por pistas reluzentes. Talvez fossem as únicas boas memórias que ele tinha. Ou então as únicas memórias que tinha naquele momento. Não precisava de outras. O rádio desligado. Nunc...

Risos

Riam. Riam com força. Riam pra valer. Rir é bom pra saúde, não é mesmo? Então vamos rir, pois não é um ser humano que temos aqui na nossa frente, é uma piada. A melhor piada que já vimos. Ela não muda, nós podemos rir à vontade e ela não se altera. Vamos rir mais. Vamos ridicularizar a piada e torná-la ainda mais engraçada. Queremos rir até a barriga doer e os olhos lacrimejarem. Queremos rir até os músculos do maxilar darem cãimbra. Rir até a piada morrer . Com quantas risadas se causa uma lágrima?

Autocrítica

Eu me tornei o que sempre odiei. A apatia em pessoa, fleumático como um legítimo britânico de anedota. Sinto como se a vida fosse um filme cujo livro em que o roteiro foi baseado eu já li. Não há muito que me surpreenda, e eu que achava que a vida era uma mudança sem fim. Um dia desses tive este pedaço de conversa com um grande amigo meu: - Ei, Rafa... Desculpa ressuscitar um assunto que já deve estar enterrado, mas e o coração, como vai? - Hmm, não sei. Faz tempo que não o vejo. E é mais ou menos assim que estou. Perdi o coração por aí e só me dei conta disso quando senti o vão em meu peito ao falar com pessoas que amo e com quem me importo. Quando fui a uma festa com pessoas fantásticas e não consegui rir. Quando troquei olhares com uma garota e nem ao menos me ressenti de, mais uma vez, não ter ido falar com ela. Porque o normal seria eu ter o peso de tudo que estas pessoas sentem no meu peito, eu absorver toda emoção e sensação pesada e negra para deixá-las mais leves....

Desista...

A casa fervia com música e luzes. Era grande, com dois andares e uma enorme sala de estar, onde os convidados se aglomeravam e estupidamente conversavam sobre futilidades, mais interessados em prazeres do que no assunto. Carlos olhava tudo aquilo, toda aquela agitação com certa reserva, mas enfim decidira arriscar-se. À entrada alguém mais animado recepcionava as vítimas recém-chegadas: – Adentre-se, caro amigo, pois aqui todos o são e estão felizes por tê-lo aqui! Carlos olhou com certa desconfiança o sujeito. Franziu a testa, mas deu de ombros e entrou. O interior era um pandemônio. Ou pelo menos era o que parecia ser, pois pouco podia se ver naquele ambiente. Uma música alta e repetitiva enchia a sala, uma batida tão forte que tirava a vontade própria dos corpos lá dentro, impulsionados por ela a se movimentarem no mesmo compasso. E os corpos pareciam se juntar para se roçarem aos pares, em algo que à meia-luz parecia um ritual grotesco. Talvez fosse por isso que as luz...

Convulsivo

Boa noite . E este seria o último boa noite que ele diria, pensou por um momento. Que alívio . Deitou-se após escolher um CD pra tocar até adormecer. A madrugada o acordou sobressaltado. Já podia sentir a vida abrindo a porta e se preparando para sair. Tantas vezes sentira aquilo, a agonia em se salvar, se afastar da beirada. Pra quê? Vamos ver o que tem lá embaixo . Sem pudor, sem consideração, sem pensar no que os outros vão pensar, nunca mais . Por mais difícil que fosse, tentaria ignorar as sensações desagradáveis de esmorecimento e fraqueza. Era a última vez que esperava alguma coisa. O desespero dos habitantes da casa foi grande quando ouviram a cama ranger e bater contra a parede, levada pelos espasmos do rapaz, que logo entrou em convulsão. – Coloca açúcar na boca dele, rápido! – Não dá, ele está se debatendo muito! – Vamos levá-lo pro hospital. – Eu não vou conseguir carregá-lo, nem você. Melhor chamar uma ambulância, e rápido. Luzes vermelhas, a sirene estuprando...

Corte de cabelo

– Como vai ser? – Máquina três. E eu dei uma última olhada no espelho, todo aquele cabelo, cada fio seguindo um rumo, se entrelaçando com os outros, sem se saber onde terminava um e começava o outro. Era uma bela representação das coisas que passam pela minha cabeça, todas as emoções caóticas, as idéias surreais e as sensações finas e frágeis que se vão com um puxão. Decidi fazer isso para aliviar minha cabeça, para deixar irem embora as coisas que eu já passava a não analisar mas sim remoer insistentemente, como se quisesse forçar com as mãos o rumo dos fios. O peso já fazia tudo pender para um lado e outro e isso afetava a visão plana das coisas. Não podia ser. Eu tinha que me livrar de tudo e ficar apenas com a lembrança inofensiva. Foi rápido como um corte de açougueiro. A lâmina na pele, roçando a raiz e eu desejando que a direção do movimento fosse outra. Já não consigo mais me imaginar com todo aquele pêlo. Passo a ver tudo aquilo que eu era com um certo desdém e su...

Ladainha

Resolvi voltar meus olhos pra dentro e encarar o que ninguém quer/quis/vai ver. Por isso estou tão fora do mundo, mais do que de costume, porque agora não tento me fazer ser ouvido repetindo palavras que estou cansado de ouvir. Eu simplesmente me calo e deixo as pessoas falarem, falarem e falarem porque sei que elas não dirão nada. Vou me calar e deixar aquela vozinha dizer tudo que ninguém quer ouvir, a vozinha que todos preferem calar com remédios e prazeres comprados. Espera o burburinho passar pra conseguir ouvir . E você, tem algo a dizer ?

Metapergunta

Comunicação é isso? Testar o meio para averiguar se há problemas na transmissão de mensagens ( Olá! Tudo bem? ). Pergunta e resposta, pergunta e resposta, pergunta e resposta. Despedida. Existe algo diferente?