Medo em Columbine

– Pula.
– É, pula logo!!

Ele não queria pular. Sentia algo o impedindo de fazê-lo. O vento no rosto, no corpo, cortando-o com uma lâmina de frio? Era a sensação de desamparo causada pela falta de apoios em ambos os lados? Talvez a altura, maior do que tudo, uma gigante pronta a devorá-lo em um segundo de imprudência.

Não. Era o medo. O medo o impedia de pular. De conhecer um mergulho gostoso, a sensação de se juntar à agua fria a apagar o incêndio na pele e acalmar a pira da alma. O medo o impedia de fazer uma coisa que poderia ser boa. Mas era um medo infantil. Logo cresceu e superou os medos dos atos físicos; estes realmente são bobos e não representam desafio à mente.

No entanto, nações inteiras vivem com medo. Em seu brilhante filme Tiros em Columbine, Michael Moore expôs o medo que não somente impede um povo de se conhecer, de abrir portas e janelas, mas também impulsiona um comportamento autodestrutivo e praticamente suicida de alguns cidadãos mais exaltados pela indústria de armas de fogo. Um medo social corrosivo.

E qual é o medo maior que ele tinha? Qual era o medo que o impedia de conquistar o mundo, agora que ele havia superado os medos de infância bobos? Na verdade, este era um medo incutido à força por interpretações erradas durante toda sua vida. Um medo mais bobo que os outros (este é o maior pleonasmo de todos, pois todo medo é bobo; o medo em si não tem qualquer fundamento forte, podendo ser facilmente derrubado): o medo de sentir algo.

Ele admirava as pessoas que saíam toda noite a se entregar aos braços de outro alguém sem qualquer medo de se perder um pouco. Demorou a perceber que as pessoas que fazem isso têm mais medo que ele, e que o fazem se guardando dentro de uma caixinha que fica em casa, dentro de uma gaveta, bem escondida. sempre soube que sentir implicava perder um pedaço de si mesmo e que tal perda era dolorosa. Perdeu anos tentando descobrir uma forma de sentir sem se perder, sem perder nada. Só conseguiu se perder e lamentar a perda.

Finalmente descobriu que perder não era uma reação adversa do sentir. Perder ERA sentir. E não era perda, era uma doação voluntária, feita com o consentimento dele mesmo, que não se dava conta disso. Não havia porque sentir medo. Medo infundado, medo superado. O medo o deixou no momento que sabia que algo bom viria de tudo aquilo. Pulou.

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