Carlos

Carlos não aguentava mais. Sua vida estava cheia demais, problemas demais, pessoas demais. Todos se falavam o tempo todo, mas nada parecia ser dito. Onde estavam as coisas novas? Onde estavam as palavras complicadas mas bonitas que traziam um significado enorme para sua cabecinha tão pequena, quando ele era menor? Só porque crescera, não deveria deixar de aprender. Então era isso. Ou aprenderia uma palavra nova ou pararia de dizer. Cansara completamente de repetir o que já sabia de cor.

Cheia. Vida cheia. Carlos tinha deixado entrar tantas coisas dentro de si mesmo que já não sabia se ainda podia se encontrar no meio de tanta coisa. As palavras, que eram tantas e tão complexas e tão bonitas, enchiam sua barriga muito mais do que a comida. E as pessoas, que iam e vinham para lá e para cá, ele comia com os olhos famintos. Lotada. Mastigava cada sílaba, cada órgão, e vomitava poucos. E ouvia ecoando dentro de seu próprio corpo: vida cheia, vida cheia.

Onde encontrar palavras? Onde? Era algo que o atormentava. Pois ele ia às bibliotecas, e encontrava pessoas. Livrarias, mais pessoas. Sebos, pessoas velhas, mas pessoas. Pessoas, peçonhas, mesmo dentro dos livros. Os livros! Que deveriam ser palavras puras e em seu estado mais absoluto, não conseguiam esconder as pessoas por detrás delas. Teria de encontrar palavras fora dos livros, fora do papel. E fora de si mesmo.

Dentro, fora, dentro, fora. Nos livros ele via dentro e nas pessoas via fora. Conhecendo uma pessoa nova, aprendia mais uma palavra. Aprendendo uma palavra nova, conhecia outra pessoa. Seu passatempo logo se transformava em necessidade. Em vício. Aquele círculo vicioso que o prendia e enchia, que o completava, era ao mesmo tempo insuportável. Carlos não aguentava mais. Sentia-se lotado e por isso mesmo queria mais. Vida cheia.

Era por ver a seca nas outras pessoas que ele se preocupava, mesmo de barriga repleta de palavras. Não tinha mais fontes, elas eram tão temidas pelos outros que foram sumariamente aterradas. Só restava uma reserva finita, que poderia e iria se extingüir em breve. E se se extingüisse, o que aconteceria com Carlos? Carlos, Carlos, o que será de ti? O fim das palavras dentro dele era mais aterrorizante do que o fim de seu corpo sólido e bobo. As palavras importavam, enchiam e alegravam. Alegravam? Nem todas. Mas ele as queria mesmo assim. Cheio, abarrotado, a ponto de explodir. Faltava achar mais uma, a gota d'água, o estopim para sua explosão. Se não poderia ter uma fonte eterna, que pelo menos conhecesse o limite máximo.

E Carlos procura, procura. Mergulha dentro da água e sobe até qualquer nuvem. Ínfimo, máximo. Palavras, pessoas. Carlos olhou para frente e viu um palavrão. Arregalou seus olhos, mas já sentia na boca o gosto da saliva se formando. Não sabia que eram tão saborosos. Foi caçando palavrões grandes e pequenos, dos mais simples aos mais esdrúxulos, e devorava todos com gula. Eram melhores que as pessoas e que as outras palavras, porque estes continham violência, obscenidade, errado, proibido. E agora não era mais vida cheia. Era a porra da merda da vida que era fodida de cheia. E Carlos já não era mais Carlos. Era o bosta do Carlos. Tanto que mais dia menos dia não sabia falar outra coisa. Se encheu tanto de cus e putas que o parius que não encontrou mais nem ele nem ninguém. E explodiu como que dizendo vai à merda.

Texto escrito em parceria com Leda Cartum.

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