Carta ao fim
Então, amigos, eis que vocês me encontram nestas palavras. Palavras soltas nesta carta deixada na mesa, ou em cima da cama, sem fazer questão de ser notada. Tudo que digo aqui não poderia ser dito em outra ocasião; do contrário, nunca agüentaria encará-los, não gostaria de saber de suas reações.
O que faço aqui é me expor. Talvez mais do que os legistas ousaram fazer. Engraçado que eu sempre estive na frente de vocês, ao lado, atrás. Sempre por perto. Mas vocês nunca me viram. Não sabem que direção toma o meu sangue quando ele se perde aqui dentro. O que vai ser lido aqui é o que reinou irreprimido na minha cabeça intranqüila. Se assustem. É o mínimo que espero, visto que vivi assombrado por isto.
Eu não fui apegado a muita coisa. Neste fim de vida, de pouca coisa fiz realmente questão. Tanto faz um copo de água quente e suja ou uma taça de vinho tinto seco. Tanto faz um prato generoso feito com temperos exóticos e custosos ou um pedaço de pão velho e duro, que mais serve para se tirar sons engraçados. Tanto faz um farrapo que descobre minha pele e a deixa à mercê do vento ou um paletó que é mais valorizado do que quem o realmente costurou. Tanto faz um pedaço de papel ou uma tela de computador.
Mas existe uma coisa que eu prezo muito. Que não pode ser substituída por algum similar, mesmo porque não há similar. Algo ao qual me apeguei de imediato, mesmo sem saber bem o que é, mas que só de ouvir falar me fascina. Só de presenciar me alucina. É um sentimento. Ou são sentimentos, não posso limitar o que não consigo definir. Foi-me negado ter, foi-me negado saber o que é. Justo o que quis com mais intensidade. O objetivo mais claro que tive. Não o alcancei, e agora não quero ver como são as coisas sem ele. De máquinas nossa realidade já é plena.
É estranho que justamente quando achava o estar atingindo, ele me era negado. No seu lugar vinha a dor, minha velha conhecida. Esta é como uma criança mimada: não importa o quanto de atenção se dê a ela, ela sempre vai querer mais, e vai quebrar coisas caras e valiosas na sala para conseguir mais atenção. Não dá pra se acostumar.
Eu poderia ter vivido mais. Poderia ter lido mais livros, ouvido mais música. Estas eram coisas que realmente deram sentido a algo inútil. Mas de que me valem sem aquele sentimento? São apenas células de algo que um dia foi vivo e vibrações de moléculas. Todo o sentido deles foi atribuído por outrem. Nada ao qual eu atribuí sentido ficou por perto, onde eu pudesse ver, onde eu pudesse viver.
Esta carta realmente não explica nada. Nem nada do que eu escrevo, nada do que eu digo. Minha intenção não é explicar, é confundir, distrair a atenção de vocês para que eu possa ser invisível. Jogado ao oceano em ínfimas e quase infinitas partículas cinzas eu atingirei este objetivo. Só este.
Adeus.
O que faço aqui é me expor. Talvez mais do que os legistas ousaram fazer. Engraçado que eu sempre estive na frente de vocês, ao lado, atrás. Sempre por perto. Mas vocês nunca me viram. Não sabem que direção toma o meu sangue quando ele se perde aqui dentro. O que vai ser lido aqui é o que reinou irreprimido na minha cabeça intranqüila. Se assustem. É o mínimo que espero, visto que vivi assombrado por isto.
Eu não fui apegado a muita coisa. Neste fim de vida, de pouca coisa fiz realmente questão. Tanto faz um copo de água quente e suja ou uma taça de vinho tinto seco. Tanto faz um prato generoso feito com temperos exóticos e custosos ou um pedaço de pão velho e duro, que mais serve para se tirar sons engraçados. Tanto faz um farrapo que descobre minha pele e a deixa à mercê do vento ou um paletó que é mais valorizado do que quem o realmente costurou. Tanto faz um pedaço de papel ou uma tela de computador.
Mas existe uma coisa que eu prezo muito. Que não pode ser substituída por algum similar, mesmo porque não há similar. Algo ao qual me apeguei de imediato, mesmo sem saber bem o que é, mas que só de ouvir falar me fascina. Só de presenciar me alucina. É um sentimento. Ou são sentimentos, não posso limitar o que não consigo definir. Foi-me negado ter, foi-me negado saber o que é. Justo o que quis com mais intensidade. O objetivo mais claro que tive. Não o alcancei, e agora não quero ver como são as coisas sem ele. De máquinas nossa realidade já é plena.
É estranho que justamente quando achava o estar atingindo, ele me era negado. No seu lugar vinha a dor, minha velha conhecida. Esta é como uma criança mimada: não importa o quanto de atenção se dê a ela, ela sempre vai querer mais, e vai quebrar coisas caras e valiosas na sala para conseguir mais atenção. Não dá pra se acostumar.
Eu poderia ter vivido mais. Poderia ter lido mais livros, ouvido mais música. Estas eram coisas que realmente deram sentido a algo inútil. Mas de que me valem sem aquele sentimento? São apenas células de algo que um dia foi vivo e vibrações de moléculas. Todo o sentido deles foi atribuído por outrem. Nada ao qual eu atribuí sentido ficou por perto, onde eu pudesse ver, onde eu pudesse viver.
Esta carta realmente não explica nada. Nem nada do que eu escrevo, nada do que eu digo. Minha intenção não é explicar, é confundir, distrair a atenção de vocês para que eu possa ser invisível. Jogado ao oceano em ínfimas e quase infinitas partículas cinzas eu atingirei este objetivo. Só este.
Adeus.
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