Ousadia

No meio de todos eu não consegui me ver. Todos tão preocupados em mostrar algo físico, algo óbvio para o olho atento. São todos estudantes de publicidade, querendo divulgar algo que está mais do que claro? Sim, vocês são bonitos, seus corpos esculpidos, mas o que há dentro deles? Simples órgãos, sangue e plasma? Tecidos? Eu quero ver o que vocês sentem. Eu quero ver o que vocês pensam.

Eu sou mais ousado que um legista, quero lhes expor ao extremo inimaginável! Quero ler o segredo mais escabroso, quero ver se existe amor como o meu dentro de mais alguém, ou se sou eu o único a hospedar um sentimento totalmente alienígena.

Mas é claro que não dá. A ignomínia domina, vocês não conseguem sentir o quão inofensivo eu sou, que eu não represento simplesmente nada. Eu sou apenas uma paisagem, não tenham medo de mim. Se exponham a mim como fariam a um espelho – não, não um espelho pois um espelho tem olhos julgadores. Eu não tenho olhos, ouvidos ou sentidos. Não tenho língua, não tenho lábios.

E não quero o sentimento de vocês.

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