Internet

Antigamente a internet era uma pequena rede usada apenas por universitários (provavelmente da área de computação – não me perguntem detalhes). Era tão legal acessar aquele mundo que já parecia enorme pelas velhas e boas BBS's. Não existiam páginas de busca como as que existem hoje, que vasculham praticamente cada bit de todas as páginas atrás daquela informação que você procura.

Então quando achávamos uma página legal, era como descobrir um tesouro; guardávamos o endereço em livrinhos de endereços que eram como verdadeiros livros de receita. Visitávamo-las com a maior freqüência possível (uma vez a cada dez dias – uma heresia de tão pouco para os padrões de hoje). E tínhamos o maior cuidado com o que fazíamos enquanto estávamos online. O temor de ter nosso servidor BBS banido daquele mundo era grande, pois os olhares furiosos dos outros usuários se voltariam com certeza a nós.

E passou-se mais tempo, ganhamos acesso à internet por um servidor maior (500 usuários – uau!), passamos mais tempo online. Perdemos o medo de sermos banidos. As páginas se multiplicavam, as atividades ilegais (leia-se pirataria de jogos e softwares) também. E mesmo essas eram no fundo muito inofensivas.

A internet se tornou algo comum. Tão comum quanto livros e tv, ela era a mais nova fonte de informação. Ela se tornava o caderninho das pessoas que se cansaram de escrever naquele caderno insosso que tanto tinham que esconder dos outros. Por que não escrever ali, na internet? Era tão público, tão aberto, que ninguém iria notar, a não ser aqueles a quem se divulgava o endereço. Nasciam os webloggers e seus blogs.

A idéia minimalista de diário não se aplicava a eles. Ali se criavam idéias fantásticas, pois não havia limitação física para o que se podia publicar ali: música, fotos, desenhos, montagens. Até poesia, veja você. Idéias nasciam e andavam com pernas próprias nesse meio.

O problema de se ter uma idéia que está ali para todo mundo ver é que inevitavelmente pode chegar alguém e não gostar dela. Não precisa gostar dela, nem mesmo deve, não existe nada que agrade todos. O problema é que nem sempre todos têm essa postura. E, o principal, não têm essa postura ao mesmo tempo, porque podemos até pensar assim a maior parte do tempo, mas há dias em que não queremos saber se existem pessoas diferentes de nós e que discordam de nós. A primeira reação nesses dias é afastar de imediato quem quer que seja que não gostou da nossa idéia. Uma reação não muito diplomática, mas humana.

Temos uma verdadeira bola de neve quando essa pessoa que foi afastada também não está em seus melhores dias. Porque, se os amantes nascem de uma sintonia de sentimentos mútuos, assim também nascem os inimigos. Uma sintonia de repulsão mútua.

Aí lembramos que na internet não tem censura. Ninguém bate na sua mão se você escreve um palavrão na internet. No máximo te ignoram ou te escrevem um palavrão de volta. Na internet não existem rostos, apenas números. IPs que não nos remetem a qualquer endereço mais exato. Os covardes são os primeiros a se aproveitar desse anonimato. Porque podem assustar os outros com palavras ameaçadoras, que abominamos ouvir na vida real, que imaginamos existir apenas nos filmes de suspense. Mas elas existem e são soltas por aí sem qualquer conseqüência.

Mal sabem os covardes que soltam a bomba e fogem o quanto estamos despreparados para lidar com esse tipo de coisa. Viramos crianças, queremos afastar o homem mau de qualquer forma. E fazemos besteira. Talvez até pior do que a besteira feita pelo indivíduo. A bola de neve virou avalanche. Esforços incontidos para fazer o outro arregar e voltar a ser... humano. Humano, que comete erros. Que não soube encarar bem uma crítica ou uma idéia diferente da sua.

Talvez seja hora de esquecermos das ferramentas que existem na internet que podem fazer tantas coisas, que nos tornam seres cibernéticos intocáveis e fazer algo que não exige qualquer ferramenta: ser humano.

Comments