Pai de um filho não nascido

Foi acordado pelo cutucão dela. Estranhou vê-la ali, afinal ele mora sozinho, e ninguém tinha a chave. Ela falava sem parar, e ele ainda naquele estado semi-consciente não entendia nada. Pediu um tempo pra se recompor, ou pelo menos acha que pediu. Sua mente ainda estava em pedaços desconexos, as informações não paravam de chegar, ela não parava de falar.

Grávida, ela disse. Grávida. Era importante a ponto de justificar ela arrombar a porta dele e acordá-lo. Ele seria pai. Ele que nunca foi nem marido, parceiro, namorado ou algo que o valha. Ele não quis perguntar se ela tinha certeza que ele era o pai. Não lhe importava, só não queria afugentá-la, não queria que ela fosse embora com aquele presente. Se não fosse o sangue dele correndo nas veias daquele bebê, tanto melhor pro pequeno. Teria melhores chances de ser geneticamente feliz.

Foram cinco meses de muito trabalho. Ela se mudou para a casa dele, naturalmente. Foi expulsa da casa dela como uma renegada, pelos mesmos motivos que sua velha e amarga mãe fora antes dela. Velhas lições que nunca ensinam nada além do desgosto, do desprezo. E a depressão, que não podia faltar, pois se antes se escondia em um sorriso torto e ensaiado agora se revelava na fraqueza das defesas baixas. Ele teve que vigiá-la o tempo todo, alimentá-la, acalentá-la, embalar seu sono. Gostava disso. Sentia-se bem em vê-la um pouco melhor, em ver que ele lhe fazia bem.

O problema surgiu após o parto. Agora ele teria de cuidar de uma pessoa carente, frágil e indefesa, e mais o bebê. E era um lindo bebê, ele que nunca gostou de crianças sentia um amor imenso por aquela em especial. Era difícil ter que lidar com as necessidades daquele pequerrucho enquanto a mãe estava visivelmente afundada em algum lugar escuro e sem contato com a realidade. Impediu-a por vezes de fazer algo impensado, mal pensado ou pensado demais.

Um dia a decepção, que ele tanto driblava, o encontrou: acordou e as coisas pareciam calmas demais. Seu quarto estava com a porta fechada, de modo que ele não pôde ouvir choros ou barulhos durante a noite. Abriu-a exasperado e correu ao quarto do bebê, somente para encontrar o cenário de seus pesadelos recorrentes: a mulher no chão, garrafas e garrafas no chão e nas mãos. A mamadeira com cheiro de álcool e insensatez. O bebê frio, frio como as pessoas lá fora, frio como ele tinha acostumado a se sentir.

Enterrou ambos como pede o roteiro. A família dela aparece como um relâmpago, olha o corpo dela, murmuram alguns sermões para um corpo já surdo e vão embora. Não ligaram para o bebê, que para eles não deveria nem existir. Ele teve que acompanhar o ensejo do enterro sem muletas e sem lágrimas, e se manteve assim até o momento que a lápide de seu filho foi devidamente colocada. Não mostrou fraqueza para o filho nem neste momento. Somente ao sair do cemitério, permitiu-se chorar copiosamente, em um beco distante de qualquer olhar, repetindo a si mesmo, anjos não podem ter filhos, não podem...

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