O sentido de não falar

Eu só queria gritar. Tantos empurrões, tantas palavras lavradas contra mim, pesadas e ásperas e incômodas. Tudo isso incutiu a raiva em mim, uma raiva que junto com álcool e injeções se tornava um ácido que corroía por dentro. Corroeu minha garganta para que eu não pudesse falar. Corroeu minha ação para que eu não pudesse reagir ou interagir. Ainda assim, eu queria gritar. Gritar toda a passividade que me fora impingida, que mais tarde eu transformei em impassividade.

De certa forma eu gritava. Mas aparentemente, eu gritava para mim mesmo, e apenas meus ouvidos doíam e sangravam. Para o mundo era engraçado me ver abrindo a boca sem emitir um só som. Era hilário eu me debater contra paredes de espinhos venenosos. Era cômico eu me cortar ao desesperadamente querer abrir janelas a socos e cotoveladas. Pois bem, as risadas histéricas e estéreis ainda ecoam nas minhas cicatrizes. Isso também é risível.

Então para que gritar? Vamos sussurrar. Sussurre o seu suicídio nos ouvidos de um padre e ele lhe dará a salvação em um salmo. Sussurre sua indignação às paredes sujas e quebradas por você. Sussurre seus pensamentos no papel e veja que bela fumaça eles produzem ao serem queimados. Sussurre porque todos estão gritando e você não quer ser ouvido ou vívido. Quer? Não, não quero.

Parando de gritar eu consegui ouvir. Ouvi tanto os sussurros de alguns quanto os gritos de muitos; não são lá tão diferentes. Eu parei de gritar porque precisava começar a ouvir. Parei de sussurrar porque não tinha mais voz nem para isso. E agora caminho calmamente neste mundo de surdos, sem temer ser ouvido, sem temer ter minhas idéias expostas ao ridículo. Elas são mais úteis em forma embrionária, etéreas e fantásticas. Belos e silenciosos abortos.

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