Banho

Adentrava no banheiro um verdadeiro lixo. Não estava sujo, estava imundo. Não conseguia sequer se mover direito sem sentir a pele grudar na pele. Imundo. Tirou a roupa, mas deixou a vergonha de se olhar no espelho.

Entrou no chuveiro, abrindo a torneira e deixando a água cair em cima de seu corpo. Fria no início, e esquentando aos poucos, ah, o calor artificial. Apreciava muito o frio por não conhecer o calor de verdade. Pegou o xampu, qualquer xampu, não fazia diferença. Sem lágrimas, dizia a embalagem. Hunf, pensou ele. Uma gota, fricção e espuma.

Toda aquela água e espuma passando por ele. Era impossível segurar a água por muito tempo, as mãos em concha tentavam. A água passava e levava um pouco da sujeira embora, levava também uma parte dele pro ralo. Nunca ia a sujeira toda, mesmo que atrapalhasse, atrapalha a viver. Pegava a escova e insistentemente esfregava suas costas para se livrar da imundície. Sôfrego, esfregava até arder. A água e espuma que escorriam já eram rosa, e a dor já era distração.

Saiu na vontade de ficar com frio. Não se enxugou, não pegou a toalha. Foi à prateleira da cozinha, pegou aquele velho álcool, retirou a tampa e derramou-o nas costas. Frio e ardor pra substituir a raiva e a dor, que venha o algor! Procurou mais álcool na geladeira, no bar, na garrafa, na lata e no copo. Álcool por dentro e por fora, para purgar de vez. Caiu no chão querendo sentar, um ébrio sem nenhum brio. No escuro do aposento com a luz do desespero teve um lapso de lucidez. Uma pessoa, apenas uma. Tão longe e ainda assim mais perto que qualquer outra.

Levantou-se e foi se enxugar. A cabeça meio leve, viu de relance algo estranho no espelho, o que era aquilo? Um... sorriso?

Um sorriso.

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