Autocrítica

Eu me tornei o que sempre odiei. A apatia em pessoa, fleumático como um legítimo britânico de anedota. Sinto como se a vida fosse um filme cujo livro em que o roteiro foi baseado eu já li. Não há muito que me surpreenda, e eu que achava que a vida era uma mudança sem fim.

Um dia desses tive este pedaço de conversa com um grande amigo meu:

- Ei, Rafa... Desculpa ressuscitar um assunto que já deve estar enterrado, mas e o coração, como vai?
- Hmm, não sei. Faz tempo que não o vejo.

E é mais ou menos assim que estou. Perdi o coração por aí e só me dei conta disso quando senti o vão em meu peito ao falar com pessoas que amo e com quem me importo. Quando fui a uma festa com pessoas fantásticas e não consegui rir. Quando troquei olhares com uma garota e nem ao menos me ressenti de, mais uma vez, não ter ido falar com ela. Porque o normal seria eu ter o peso de tudo que estas pessoas sentem no meu peito, eu absorver toda emoção e sensação pesada e negra para deixá-las mais leves. O normal seria eu rir, rir descontroladamente, mas tudo que eu tinha era um meio sorriso no rosto inumano. O normal seria eu imaginar mil maneiras cinematográficas de começar uma relação com aquela garota, algum tempo depois de não ter mais chance nenhuma de me aproximar dela.

Entendam. Eu jamais quis me tornar essa máquina que não sente. Prefiro me dilacerar por dentro de dor a ficar impassível a um ser humano. Mas creio que senti tanto nestes últimos tempos que o meu sentir cansou e parou.

Me lembro de quando eu fiquei diabético, quando meu sistema imunológico simplesmente resolveu atacar e destruir minhas células produtoras de insulina por achar que estas eram corpos estranhos que me fariam mal. De uma forma parecida, meu emocional cansou de tanta dor e resolveu parar, me deixando apático. Me deixando fora do ar. Fora do mundo.

Vamos esperar que isso passa. Isso passa. Passa?

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