Desista...

A casa fervia com música e luzes. Era grande, com dois andares e uma enorme sala de estar, onde os convidados se aglomeravam e estupidamente conversavam sobre futilidades, mais interessados em prazeres do que no assunto. Carlos olhava tudo aquilo, toda aquela agitação com certa reserva, mas enfim decidira arriscar-se.

À entrada alguém mais animado recepcionava as vítimas recém-chegadas:

– Adentre-se, caro amigo, pois aqui todos o são e estão felizes por tê-lo aqui!

Carlos olhou com certa desconfiança o sujeito. Franziu a testa, mas deu de ombros e entrou.

O interior era um pandemônio. Ou pelo menos era o que parecia ser, pois pouco podia se ver naquele ambiente. Uma música alta e repetitiva enchia a sala, uma batida tão forte que tirava a vontade própria dos corpos lá dentro, impulsionados por ela a se movimentarem no mesmo compasso. E os corpos pareciam se juntar para se roçarem aos pares, em algo que à meia-luz parecia um ritual grotesco. Talvez fosse por isso que as luzes eram mantidas tão fracas.

Carlos se dirigiu à mesa para se servir de algo para beber. Estava ali o outro responsável por tanta fricção de corpos e movimentos desinibidos. A quantidade de álcool ali era suficiente para que várias pessoas afogassem várias mágoas e esquecessem suas vidas inteiras mais de uma vez. Escolheu uma bebida cujo teor alcoólico não passasse de um dígito e encheu um copo, daí virando as costas à mesa e observando aquela dança bizarra. Logo uma moça se aproximou dele, ao reconhecê-lo:

– Carlos! Tu vieste!

Ele não se moveu. Deixou o copo sobre a mesa e esperou que ela viesse, ao que ela o abraça e lhe dá um beijo no rosto.

– Claro que vim. Eu não te disse que viria? Bem, cá estou.
– Estás gostando da festa?
– Como uma extração de dente sem anestesia.
– Hã?
– Nada. Pensaste sobre minha proposta?

Aquela palavra fez a moça perder todo aquele ânimo e ficar séria. Era estranho que tudo o que envolvia aquela palavra, que não era pouca coisa, estivesse tão bem guardado e escondido na mente dela, só se manifestando ao pronunciar da mesma pelo rapaz. A alegria dela se foi, seu semblante ficou grave e àquele momento qualquer abalo entornaria uma lágrima.

– Eu... tu sabes bem que eu...
– Eu não sei nada. Não me venhas com essa. Há dias que não nos falamos, desde que te propus a nossa união. Tu me disseste que irias pensar sobre isso, pois teu coração estava ainda confuso. Tua última mensagem foi o convite a esta festa.
– Sim, mas... Carlos, não sei como dizer isso, mas acho que ainda não me decidi...

O semblante dele não aparentava emoção nenhuma ao ouvir toda aquela indecisão de moça adolescente e sonhadora. Ele não dignou-se a responder. Ela nervosamente fugia ao seu olhar, era óbvio que queria mudar o assunto, mas ele não deixaria.

– Mas, afinal, por que tens tanta pressa?
– Aceitas uma bebida?
– Hã? Ah, acho que sim. Mas... tu não respon...

Ele deu as costas antes que ela pudesse cobrar uma reposta. A raiva transbordava e era derramada nos idiotas em seu caminho. Dirigiu-se à mesa de bebidas, escolheu qualquer garrafa e encheu o maior copo que pôde encontrar, engolindo tudo num trago só, junto com tudo de bom que sentia até aquele momento. A mistura logo lhe subiu à cabeça, corroendo seus pensamentos e memórias. Mais um copo, e outro. Olhou para trás, ela parecia se entreter naquela dança que não era dança. Saiu calmamente, ignorando solenemente o bobo alegre da entrada que perguntou por que ele ia tão cedo. Ficou sem resposta também.

No dia seguinte, pela manhã, a moça resolveu ligar para Carlos. Demorou uma longa meia hora até encontrar em seu quarto a agenda perdida, onde se encontrava rabiscado o telefone dele. Ligou esperançosa, tinha até anotado numa folha o que iria perguntar a ele, como porque ele saíra sem se despedir e sem responder a pergunta dela. O telefone toca. E toca. E toca. Seu rosto muda de expressão à medida em que o número de toques aumenta, sem qualquer resposta do outro lado. Em uma cena patética, ela se debulha em lágrimas que desmancham o papel em seu colo, enquanto grita para ninguém ouvir, Eu aceito! Eu aceito! Eu... aceito...

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