Corte de cabelo

– Como vai ser?
– Máquina três.

E eu dei uma última olhada no espelho, todo aquele cabelo, cada fio seguindo um rumo, se entrelaçando com os outros, sem se saber onde terminava um e começava o outro. Era uma bela representação das coisas que passam pela minha cabeça, todas as emoções caóticas, as idéias surreais e as sensações finas e frágeis que se vão com um puxão.

Decidi fazer isso para aliviar minha cabeça, para deixar irem embora as coisas que eu já passava a não analisar mas sim remoer insistentemente, como se quisesse forçar com as mãos o rumo dos fios. O peso já fazia tudo pender para um lado e outro e isso afetava a visão plana das coisas. Não podia ser. Eu tinha que me livrar de tudo e ficar apenas com a lembrança inofensiva.

Foi rápido como um corte de açougueiro. A lâmina na pele, roçando a raiz e eu desejando que a direção do movimento fosse outra. Já não consigo mais me imaginar com todo aquele pêlo. Passo a ver tudo aquilo que eu era com um certo desdém e superioridade. Eu cresci e você é uma criança, pareço dizer a mim mesmo. Espero que eu esteja certo.

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