Convulsivo
Boa noite. E este seria o último boa noite que ele diria, pensou por um momento. Que alívio. Deitou-se após escolher um CD pra tocar até adormecer.
A madrugada o acordou sobressaltado. Já podia sentir a vida abrindo a porta e se preparando para sair. Tantas vezes sentira aquilo, a agonia em se salvar, se afastar da beirada. Pra quê? Vamos ver o que tem lá embaixo. Sem pudor, sem consideração, sem pensar no que os outros vão pensar, nunca mais. Por mais difícil que fosse, tentaria ignorar as sensações desagradáveis de esmorecimento e fraqueza. Era a última vez que esperava alguma coisa.
O desespero dos habitantes da casa foi grande quando ouviram a cama ranger e bater contra a parede, levada pelos espasmos do rapaz, que logo entrou em convulsão.
– Coloca açúcar na boca dele, rápido!
– Não dá, ele está se debatendo muito!
– Vamos levá-lo pro hospital.
– Eu não vou conseguir carregá-lo, nem você. Melhor chamar uma ambulância, e rápido.
Luzes vermelhas, a sirene estuprando o silêncio da madrugada. Os homens de branco entraram depressa, havia uma máquina a ser consertada a tempo de mais um dia produtivo. Não havia diferença entre eles e os soldados urbanos que foram treinados para recolher tudo aquilo que destoa da sociedade. Eles estavam ali para recolher algo podre e regar, e esperar em vão que aquilo pudesse mudar a podridão. Não adianta. Passos um, dois e três depois, o rapaz estava propriamente instalado na grande caixa vermelha sobre rodas.
Os senhores de branco tinham o diagnóstico pronto antes mesmo de ver o paciente. Não é prudente deixar o cliente esperando, afinal. Agulhas, agulhas, mil agulhas em mil veias e vasos, vamos colocar um pouco de normalidade neste corpo. Era tarde demais, mas pelo menos poderia se cobrar alguma coisa pela tentativa.
– O paciente tomou uma superdosagem de insulina. Tentamos de tudo, mas...
Estava agora no limiar, suspenso no ar. Não atingiu o chão, mas já tinha passado a beirada. Coma, a não-vida. Foi dormir sem compromisso de acordar em alguma hora. Quando o sono passar eu acordo. Quando a dor passar eu vivo.
A madrugada o acordou sobressaltado. Já podia sentir a vida abrindo a porta e se preparando para sair. Tantas vezes sentira aquilo, a agonia em se salvar, se afastar da beirada. Pra quê? Vamos ver o que tem lá embaixo. Sem pudor, sem consideração, sem pensar no que os outros vão pensar, nunca mais. Por mais difícil que fosse, tentaria ignorar as sensações desagradáveis de esmorecimento e fraqueza. Era a última vez que esperava alguma coisa.
O desespero dos habitantes da casa foi grande quando ouviram a cama ranger e bater contra a parede, levada pelos espasmos do rapaz, que logo entrou em convulsão.
– Coloca açúcar na boca dele, rápido!
– Não dá, ele está se debatendo muito!
– Vamos levá-lo pro hospital.
– Eu não vou conseguir carregá-lo, nem você. Melhor chamar uma ambulância, e rápido.
Luzes vermelhas, a sirene estuprando o silêncio da madrugada. Os homens de branco entraram depressa, havia uma máquina a ser consertada a tempo de mais um dia produtivo. Não havia diferença entre eles e os soldados urbanos que foram treinados para recolher tudo aquilo que destoa da sociedade. Eles estavam ali para recolher algo podre e regar, e esperar em vão que aquilo pudesse mudar a podridão. Não adianta. Passos um, dois e três depois, o rapaz estava propriamente instalado na grande caixa vermelha sobre rodas.
Os senhores de branco tinham o diagnóstico pronto antes mesmo de ver o paciente. Não é prudente deixar o cliente esperando, afinal. Agulhas, agulhas, mil agulhas em mil veias e vasos, vamos colocar um pouco de normalidade neste corpo. Era tarde demais, mas pelo menos poderia se cobrar alguma coisa pela tentativa.
– O paciente tomou uma superdosagem de insulina. Tentamos de tudo, mas...
Estava agora no limiar, suspenso no ar. Não atingiu o chão, mas já tinha passado a beirada. Coma, a não-vida. Foi dormir sem compromisso de acordar em alguma hora. Quando o sono passar eu acordo. Quando a dor passar eu vivo.
I just added this site to my rss reader, great stuff. Can not get enough!
ReplyDelete