Quebrando as barreiras
Impacientes, todos quebram as paredes. Alguns derrubam os tijolos um a um, outros vão derrubando-as a marretadas sem maiores cerimônias. E são muitas paredes, uma atrás da outra. Por trás delas, preso, um garoto que não sabe se quer ser liberto. Ele fica ali, sentado, desviando das lascas de tijolo e dos pedregulhos, desejando o fim de todo esse alvoroço.
Ali, pálido e assustado, ele se lembra de como foi parar ali. De sua infância. De como sua mãe, querendo ter um pouco de sossego à noite para ler, colocava um pouco da vodca que ela tomava – para aturar as mentiras do casamento – em seu leite. E seu pai, querendo o mesmo sossego para ouvir seus vinis de Chico Buarque, colocava um pouco do uísque que ele degustava toda noite. Ele bebia essa mistura diariamente, acordando sempre com uma dor de cabeça estranha que o impedia de ser hiperativo como as outras crianças. A vodca também o deprimia um pouco, logo ele preferia ficar quieto na sala, observando todos que por ali passavam. E, quando não havia ninguém, ele voltava sua atenção para aqueles paralelepípedos na estante. Abria-os e ficava passando os olhos curiosos por aquelas páginas recheadas de pequenos desenhos que formavam um desenho maior.
O pai, preocupado com esta precocidade toda, resolveu distraí-lo com algo mais adequado à sua idade: as revistas em quadrinhos. Elas fascinavam aquele garotinho ávido por histórias. O pai lia para ele todas as tardes e ele acompanhava tudo, tudo, sem deixar passar um detalhe. Os desenhos começavam a ser associados com um som, e agora a voz paterna ecoava em sua mente toda vez que ele via determinado desenho. Feliz, ele repetia o som da voz dele, querendo ser como o pai e sua barba imponente. Assustou a todos da primeira vez em que fez isso na frente da família. Ele lia.
Agora ele tinha um passatempo para as manhãs vagarosas de sua vida. Dedicava-as a, lentamente, caminhar por aqueles desenhos enormes dentro dos paralelepípedos com seus olhos enormes. Era engraçado ver como ele se envolvia nas histórias que descobria existir por trás dos desenhos. Fazia bons amigos naqueles mundos, amigos leais e com princípios.
Os pais, não satisfeitos em ver seu precioso e frágil filho enfurnado naquele mundo pernicioso, insistiam que o menino saísse e fizesse amigos lá fora. Ele ficava relutante em chamar aqueles seres lá fora de amigos. Todos eram muito diferentes dos amigos que ele fizera nos livros. Preferiu se ater às amizades das histórias, afinal estas ele poderia carregar por toda parte, naquele enorme mundo que ele já começava a construir em sua cabeça. As outras eram vistas como entraves de sua existência, sempre o provocando a sair detrás das pequenas muretas que um dia se tornariam aquelas enormes paredes.
E agora estas enormes paredes estavam sendo levadas ao chão, num processo desencadeado pelo próprio garoto que as construiu com tanto esmero. Achava que já era hora de procurar amizades que correspondessem às que ele criou no mundo de palavrinhas e palavrões dele. Era hora de dar um som a todas estas palavras, de ouvir uma voz emiti-las. Começou a gritá-las por detrás de suas paredes, e, surpresa!, tinha gente do lado de fora que respondia. E toda essa gente resolveu derrubar as paredes para ver quem está lá.
O garoto ainda está assustado e se apega às palavras, que agora de tanto ouvir ele teme. Teme que as palavras não soem aos ouvidos tão belas como elas aparecem naqueles paralelepípedos que foram e ainda são seus amigos. E chora ao ouvir palavras inesperadas. Chora ao ver que ele talvez aquele belo mundo que ele construiu seja destruído no processo da queda das paredes. Ele chora enquanto as paredes ainda o ocultam, pois sabe que após a queda delas não poderá mais chorar. Vai ter que sorrir.
Ali, pálido e assustado, ele se lembra de como foi parar ali. De sua infância. De como sua mãe, querendo ter um pouco de sossego à noite para ler, colocava um pouco da vodca que ela tomava – para aturar as mentiras do casamento – em seu leite. E seu pai, querendo o mesmo sossego para ouvir seus vinis de Chico Buarque, colocava um pouco do uísque que ele degustava toda noite. Ele bebia essa mistura diariamente, acordando sempre com uma dor de cabeça estranha que o impedia de ser hiperativo como as outras crianças. A vodca também o deprimia um pouco, logo ele preferia ficar quieto na sala, observando todos que por ali passavam. E, quando não havia ninguém, ele voltava sua atenção para aqueles paralelepípedos na estante. Abria-os e ficava passando os olhos curiosos por aquelas páginas recheadas de pequenos desenhos que formavam um desenho maior.
O pai, preocupado com esta precocidade toda, resolveu distraí-lo com algo mais adequado à sua idade: as revistas em quadrinhos. Elas fascinavam aquele garotinho ávido por histórias. O pai lia para ele todas as tardes e ele acompanhava tudo, tudo, sem deixar passar um detalhe. Os desenhos começavam a ser associados com um som, e agora a voz paterna ecoava em sua mente toda vez que ele via determinado desenho. Feliz, ele repetia o som da voz dele, querendo ser como o pai e sua barba imponente. Assustou a todos da primeira vez em que fez isso na frente da família. Ele lia.
Agora ele tinha um passatempo para as manhãs vagarosas de sua vida. Dedicava-as a, lentamente, caminhar por aqueles desenhos enormes dentro dos paralelepípedos com seus olhos enormes. Era engraçado ver como ele se envolvia nas histórias que descobria existir por trás dos desenhos. Fazia bons amigos naqueles mundos, amigos leais e com princípios.
Os pais, não satisfeitos em ver seu precioso e frágil filho enfurnado naquele mundo pernicioso, insistiam que o menino saísse e fizesse amigos lá fora. Ele ficava relutante em chamar aqueles seres lá fora de amigos. Todos eram muito diferentes dos amigos que ele fizera nos livros. Preferiu se ater às amizades das histórias, afinal estas ele poderia carregar por toda parte, naquele enorme mundo que ele já começava a construir em sua cabeça. As outras eram vistas como entraves de sua existência, sempre o provocando a sair detrás das pequenas muretas que um dia se tornariam aquelas enormes paredes.
E agora estas enormes paredes estavam sendo levadas ao chão, num processo desencadeado pelo próprio garoto que as construiu com tanto esmero. Achava que já era hora de procurar amizades que correspondessem às que ele criou no mundo de palavrinhas e palavrões dele. Era hora de dar um som a todas estas palavras, de ouvir uma voz emiti-las. Começou a gritá-las por detrás de suas paredes, e, surpresa!, tinha gente do lado de fora que respondia. E toda essa gente resolveu derrubar as paredes para ver quem está lá.
O garoto ainda está assustado e se apega às palavras, que agora de tanto ouvir ele teme. Teme que as palavras não soem aos ouvidos tão belas como elas aparecem naqueles paralelepípedos que foram e ainda são seus amigos. E chora ao ouvir palavras inesperadas. Chora ao ver que ele talvez aquele belo mundo que ele construiu seja destruído no processo da queda das paredes. Ele chora enquanto as paredes ainda o ocultam, pois sabe que após a queda delas não poderá mais chorar. Vai ter que sorrir.
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