Doação

O caos de um hospital só atinge seu ápice em um hospital público. Ali, onde os que não têm onde morrer pedem que alguém os prenda à vida, foi ali que ele decidiu aparecer. Não teve problemas em passar despercebido pela recepção: estava lotada e as atendentes já tinham a quem ignorar na frente delas. Dirigiu-se a um médico que parecia estar em seu intervalo, pois sorrateiramente escondia seu jaleco no armário:

– Quero fazer uma doação.
– Seria muito bem vinda. Mas isso não é comigo, é com o setor de finanças do hospital. É no andar de cima, a segunda porta à...
– Não é doação financeira... nada de valor que eu tenha é verdadeiramente meu. Quero doar o que posso: meus órgãos.
– Xii, amigo, infelizmente aquela lei que caracterizava os cidadãos como doadores ou não-doadores na carteira de identidade foi derrubada há algum tempo. Agora, são os familiares que decidem se...
– Não, você não entendeu. Eu quero doar meus órgãos AGORA.
– Isso é alguma piada? Rapaz, isso aqui é um hospital, não é lugar para brincadeiras.
– Eu estou falando sério, eu...
– Olha, eu tenho que voltar pro meu plantão. Volte quando estiver morto, e aí conversamos sobre sua doação.

O médico despachou o rapaz e foi trabalhar com a consciência tranqüila. Não havia dispensado um doente, e sim uma pessoa com, talvez, uma boa vontade exagerada. O hospital estava abarrotado de gente querendo ser atendida e não eram horas de se ficar batendo papo.

A balbúrdia do hospital foi subitamente suspensa por um tiro. Enfermeiros, médicos e pacientes olharam para o nada por alguns segundos, depois se entreolharam e voltaram ao que estavam fazendo, como quem abana e afasta a fumaça para voltar a respirar. Os policiais que ficam no local foram conferir o que havia ocorrido.

Um pouco tarde, foi o que se concluiu. Os gritos das encarregadas da limpeza do hospital denunciaram que já se tinha achado o que os policiais foram averiguar. Um corpo atrás da caçamba de lixo, uma arma em mãos mortas. Papéis no peito que foram rapidamente recolhidos pela servente da limpeza, enquanto os policiais ajudavam os enfermeiros a colocarem o corpo ainda quente na maca. A servente tenta entregar os papéis a alguém que saiba ler, mas todos estão ocupados demais. Um dos enfermeiros estranha aquela mulher tentando acompanhar a maca e pergunta:

– Você é parente do paciente?
– Não, eu trabalho aqui, moço. Esse papel tava junto com ele, mas eu num sei lê.
– Dá aqui.

O enfermeiro pega o maço de papéis e logo vê que ele tinha um destinatário.

– Doutor Jair, isto aqui está endereçado ao senhor.
– A mim? Deixe-me ver.

Havia três papéis ali. Uma autorização do agora recém-falecido paciente, pelo que pôde perceber da discussão dos médicos e enfermeiros em torno da maca, doando todos os órgãos aproveitáveis dele e um relatório médico. Aparentemente, atestava que o paciente estava em perfeita forma, mas o médico não se ateve ao relatório e sim ao bilhete escrito à mão:

"Meu nome pode ser lido nos meus documentos, que deixei na carteira no meu bolso. Gostaria que você jogasse essa confissão fora, como se eu nunca tivesse a escrito. Que esta carta seja dissociada da minha pessoa. Já basta que uma pessoa esteja lendo isso.


"O relatório atesta que meus órgãos estão em boa forma e podem ser aproveitados com um fator relativamente baixo de rejeição, devido a meu tipo sangüíneo. Chega a ser irônico. A autorização para doação está legalmente correta, eu me certifiquei que pelo menos isto sairia direito.


"Talvez você esteja pensando por que eu fiz isso. Resumindo, eu não sou pai. Não sou marido ou namorado. Sou filho e irmão, mas eles são fortes o suficiente para superar minha perda. Deixarei de representar um gasto enorme para eles, então na verdade esta perda se converte em ganho.


"Além do mais, eu não tenho a menor ligação comigo mesmo. Meus dias são passados esperando o fim, seja do dia ou de meus dias. Nunca conseguirei fazer algo importante pra mim. Ou melhor, consegui: ao renunciar à minha vida, dei a oportunidade a outro alguém de continuar vivendo. E tenho certeza que será alguém que quis essa vida mais que eu.


"Não se preocupe, não foi você que deixou de impedir que isso acontecesse. Já estava escrito. Agora jogue isto fora."



O médico tremia ao terminar de ler aquela letra triste, aquele papel pautado de lassidão e resignação. Os outros médicos o chamavam, e ele lembrava que tinha de mostrar a autorização a seus colegas para que se pudesse aproveitar os órgãos do rapaz. Lembrou que tinha um paciente na fila de espera por um coração há meses. Deixou verter uma lágrima de seus olhos vermelhos enquanto amassava a carta e a jogava fora, esquecendo que uma pessoa tinha a escrito. Havia trabalho a ser feito e vidas a serem vividas.

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