Cartas mortas

São tantas as cartas que eu escrevo. Cartas pra mim mesmo, pra ninguém. Cartas não lidas, não enviadas, não publicadas. Cartas sem remetente, sem destinatário, sem selo. Cartas escritas sem tinta no papel sem pauta. Cartas descartadas.

Tudo se torna palavras desperdiçadas. Pensamentos que tomam a forma de uma letra, então uma sílaba, então uma palavra. Esta palavra se perde numa sinapse, erra o caminho e se descarrega no chão, estática e ao mesmo tempo inquieta.

Como prendê-las? Com um ímã, talvez? Eles só servem para repeli-las. E mesmo que eu pudesse enclausurá-las, não há a quem mostrá-las, orgulhoso como um caçador de seu mais novo ato divino. Escrever e caçar, não tem diferença. Matar a palavra e pendurá-la no papel para se sentir um deus, para se sentir melhor, para se sentir. Ou então criar uma nova palavra, soprar para dentro de uma forma de barro uma idéia. Soltar uma frágil e débil forma no entendimento de outrem, quão cruel isto pode ser. Cruel e intrinsecamente divino.

Uma carta escrita, palavras mortas, é praticamente sangue no papel. E daí, a quem mostrar, a quem enviar? Não há quem pudesse responder uma carta destas. O remetente simplesmente não quer recebê-la de volta, não quer admitir o próprio fracasso em transmitir uma mensagem. Quer continuar se iludindo e vivendo em sua falsa divindade. Carta que não pode chegar ao seu destino nem pode ser devolvida? Carta morta.

Mais uma carta morta.

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