Montando o quebra-cabeças
É curioso que eu continue nessa busca? Nem tanto. Eu tento entender. Entender porque uma pessoa é daquele jeito. Ainda que ela se apresente fechada aos meus esforços de entrar em seu mundo, de compreendê-la, isso me instiga a ser ainda mais sorrateiro e ladino, sempre buscando as peças que se encaixam na história que escrevo em minha imaginação.
Eu meio que desisti de tentar entrar na fortaleza emocional que meu pai se tornou. Mas fui atrás de todas as peças. Qualquer pessoa que esbarra na resistência do outro em ceder cansa. Principalmente se a resistência é um modus operandi, se mesmo com tanto tempo de convivência ela não se sente à vontade para abrir prerrogativas pros outros perguntarem dela, perguntarem o que ela sente. Meu pai é sertanejo, ele se criou em meio a um ambiente hostil e a agruras que só ele sabe e não conta pra ninguém — como se, ao partilhar isso, ele desse a tudo isso uma importância ainda maior e fraquejasse. Ele tem que se manter forte, e é desse modo que ele faz isso.
Antes de ingressar nessa história toda, acho válido esclarecer que sim, eu tenho mãe e que não a amo menos que a meu pai. A questão é que sempre tive abertura de conversar com minha mãe, ela nunca teve dificuldade de se expressar pra mim. Inclusive foi ela que me contou várias coisas sobre meu pai.
Meu pai perdeu a mãe dele aos 12 anos de idade. Eu começo revelando isso não porque seja o fato inicial, mas por ser o fato nessa história que me pareceu mais fácil de contar como início.
Meu avô não era fiel à minha avó. Ele a traía com uma empregada dentro da própria casa, e teve filhos com essa mulher. Minha avó presenciou tudo isso sem poder dizer uma palavra. Era a tradição da época. Aos poucos, meu avô foi afastando minha avó do convívio com a outra mulher, levando minha avó a morar na chácara de meu bisavô. Essa situação causava (supõe-se) profundo desgosto em minha avó. Ela era a mulher oficial do meu avô, mãe de seis filhos dele, e ainda assim não podia viver sob o teto da casa dele?
A mãe do meu pai era diabética. Em dado momento, como moravam numa cidade do interior, sua insulina acabou. Ela não avisou sobre a necessidade de se comprar mais insulina a tempo, que teria de ser encomendada para chegar a tempo na cidade. Supõe-se que foi algo premeditado, uma resistência passiva àquela existência frustrante e indigna. Mais uma desistência de existir naquela realidade do que um suicídio propriamente dito.
Quando minha avó faleceu, meu avô fora forçado pelo pai dele a assumir a outra mulher e casar com ela. Tradição da época, uma questão de honra, de fazer “a coisa certa”. A outra mulher, assumindo a frente da família de meu avô, cuidou que os filhos do primeiro casamento fossem relegados ao esquecimento. Meu pai foi mandado para estudar em um internato, e seus dois irmãos mais novos continuaram morando com meu avô sob o teto da casa dele, junto com sua outra família, agora promovida a oficial.
A questão é que a segunda mulher do meu avô não queria favorecer ou beneficiar os filhos do primeiro casamento do meu avô. Logo, os dois filhos mais novos desse primeiro casamento passaram por maus bocados. O irmão mais novo do meu pai sofreu todo tipo de negligência. Um caso tácito dessa negligência fora quando a segunda mulher de meu avô teria jogado fora os restos da refeição para que o irmão mais novo do meu pai não tivesse o que comer, mesmo tendo sobrado após os filhos do segundo casamento já terem se alimentado. (Novamente, preciso frisar que não posso atestar a veracidade desse causo, são apenas relatos que ouvi de meus pais, que ouviram de outras pessoas.)
O resultado disso para meu tio foi que ele se tornou alcoólatra. Começou a beber muito cedo, talvez para enganar a fome, talvez para fugir da dura realidade. Em dado momento de sua vida, ele se apaixonou por uma mulher que era filha de dona de um bordel. Ele ia se casar com essa mulher. Meu avô, temendo pela honra da família, ofereceu dinheiro a essa mulher para que ela não se casasse com meu tio. Não sei se por ter se sentido ofendida ou acatando a oferta, ela sumiu da vida do meu tio. Ele nunca mais se relacionou com nenhuma outra pessoa. Isso faz mais de 30 anos, estimo.
Meu tio conseguiu largar o vício da bebida com ajuda de alguma igreja e arranjou um emprego. Hoje é uma pessoa que vive para trabalhar e não sabe viver, no sentido de não saber o que fazer para se divertir. Na minha concepção, ele não sabe o que fazer com seu dinheiro. Poderia comprar coisas que dessem algum conforto para ele, mas não o faz. Talvez não tenha referências do que seja se sentir bem estando... vivo.
A outra irmã mais nova de meu pai teve problemas mentais desde cedo. Quando atingiu a idade de 15 anos, percebeu-se que ela tinha idade mental de uma criança de 9 anos. Não conseguiu desenvolver maturidade, estagnou na infância e hoje é tratada com pesados psicotrópicos que a deixam dopada o dia todo. Como recebe tratamento psiquiátrico do Estado, não goza de uma terapia que se dirija às raízes de seu estado, recebe apenas receitas e remédios que adormecem seus sintomas.
E agora voltamos a meu pai.
Meu pai tinha 12 anos quando perdeu a mãe dele e fora mandado para um internato. Não bastasse perder a mãe, perdera também seu pai, o contato com os irmãos, perdera toda a noção do que pudesse estabelecer como família. Recorreu, assim como seu irmão mais novo, à bebida e ao cigarro. Ainda assim, conseguiu estudar e ingressar na faculdade. Estudou em outro estado. Se formou. Tinha um diploma universitário, era um vencedor por méritos próprios.
Nesse meio tempo de seus estudos universitários, começou a namorar minha mãe, e depois que se formou eles se casaram. Logo que casaram ele levou minha mãe para acompanhá-lo no seu novo local de trabalho, em outro estado. Creio que não fosse coincidência. Ficar em sua cidade natal não traria a ele boas memórias.
Ainda que não tivesse boas memórias, as tradições se mantiveram. Uma constante de meu pai sempre foi a infidelidade para com minha mãe, além da falta de carinho e respeito. O nascimento dos filhos não mudou o seu jeito de ser, ainda que ele não tivesse filhos fora do casamento.
A pior crise do casamento de meus pais foi um ano que bloqueei da minha memória. Eu tinha uns 5, 6 anos. Nesse ano eu aprendi a ler por osmose, só observando as letras enquanto meus pais liam histórias em quadrinhos para mim. Talvez fosse uma necessidade de entender o que era aquilo que acontecia na minha frente. Nesse mesmo ano a diabetes congênita se manifestou em mim.
Por muito tempo eu fui covarde em dizer que a diabetes fora causada pelas brigas frequentes dos meus pais, que foi o estresse emocional que fez a doença se manifestar. Hoje eu me dou conta que atribuí causa a um fator que fora um mera peça no processo. A diabete é congênita, ela se manifestaria cedo ou tarde, isso era inevitável. Evitável era que eu culpasse meus pais e a relação que eles tinham pela minha condição.
Creio que a pessoa que mais sentiu o surgimento da doença em mim foi meu pai. Ele pode ter visto na minha situação o mesmo fator que tirara a mãe dele de sua vida. Mas não podia demonstrar fraqueza, isso nunca. Ele tinha que ser como sempre foi, uma fortaleza. Ele e minha mãe acabaram se separando, mas sem que ele se afastasse dos filhos. Ainda que não estivesse emocionalmente ao nosso alcance, ele estava sempre presente em nossas vidas.
O que consigo perceber, e que gostaria que meu pai também percebesse, é que foram as tradições dele, passadas de geração a geração, que geraram o cenário para o acontecimento de todas as rupturas da família. Se ele tivesse sido um bom marido, diferente de meu avô, talvez as coisas fossem diferentes. Se ele tivesse abandonado a tradição de sempre se mostrar forte e impávido a tudo...
...Talvez eu nunca precisasse escrever o que escrevi.
o que eu tenho a dizer é o seguinte: punk!
ReplyDeletetriste, lindo, doloroso.... um filme, um romance. pra matar e morrer.
Acho fascinante sua inteligência inter e intrapessoal, sua perspectiva analítica e esmiuçadora sobre as coisas...
ReplyDeleteMuitas conjunturas são estigmatizadas por certos comportamentos introjetados e paradigmas que, se fossem quebrados, poderiam mesmo alterar o rumo das coisas... Seu relato ressoa em minha sensibilidade, também fico muito reflexivo em relação a situações semelhantes em meu contexto...
Sabe o que eu acho? Que vc é um babaca metido, arrogante, falso, antipático, e que gosta de se fazer de vítima, agindo como se vc fosse o único diabético do mundo, e como se tivesse raiva de as outras pessoas não terem a sua doença. Vc já pensou alguma vez que Deus pode ter te imposto essa doença como punição por vc ter uma personalidade desprezível? Eu acho que vc deveria agradecer a Deus por existir tratamento para a sua doença e por vc ainda estar vivo. O fato de vc ser doente e ter medo de morrer não te autoriza a tratar as pessoas como lixo. Não sei se vc sabe, mas várias pessoas não vão com essa sua cara de tartaruga.
ReplyDeleteEu AMO essa carinha de tartaruga!!!
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