Não muito bem

Eu não estou muito bem.

E do alto do meu egoísmo, sei que não deveria estar dizendo isso. Objetivamente, não há nada de errado com minha vida. Tenho um bom emprego, trabalho com algo de que gosto, sou competente no que faço, vivo confortavelmente.

Inclusive, se você me perguntar -- em pessoa ou em conversa por qualquer meio que seja --, eu vou dizer que está tudo bem comigo.

O problema é quando eu paro para analisar minha vida (e eu faço muito isso). Não tenho certeza o que é, se é uma eterna vontade de automelhoramento, uma falta de acomodação, um senso de perfeccionismo, uma falta de serotonina. Quando estou sozinho em casa (todas as noites da semana, praticamente), começo a pensar em aspectos da minha vida que não me satisfazem.

Começo a ver que talvez eu tenha me tornado uma pessoa... vazia. Não consigo identificar um grande objetivo que eu esteja tentando atingir. É como se o único sentido em estar vivo fosse continuar vivendo, sem grandes realizações. Eu já tive uma banda, na qual eu tocava bateria. Por desavenças musicais e, em certo ponto, pessoais, eu tive que me afastar da banda. Aproveitei esse afastamento para me desligar da única forma de extravasamento artístico que eu tinha. “Por quê?”, poder-se-ia questionar. Eu... não sei. Talvez eu não quisesse mais me expressar dessa forma, talvez eu não queira me expressar de forma alguma. Outras ambições que eu tenho (ou tinha?) me parecem um tanto irrealistas e inconcretizáveis e, por isso, não saem do plano dos sonhos e fantasias.

Além disso, não sinto uma grande alegria ou empolgação em estar com alguém. É como se as decepções tivessem me anestesiado para que eu não sinta mais dor, e como conseqüência eu não sinto mais nada (e nem tomo antidepressivos ou qualquer outro tipo de psicotrópico, o que justificaria essa apatia). Terei me tornado... um robô? Até chatterbots têm consciência de que são um programa, ou seja, têm ciência de sua própria condição, o que me coloca em posição de equivalência a tal. Ser auto-analítico não faz de mim um ser humano. Seres humanos se emocionam, choram, têm objetivos (que não foram inseridos por outrem), sentem. Eu... não. Eu me sinto relativamente confortável em minha solidão/isolamento. Eu me compadeço do sofrimento alheio, mas há momentos que essa reação me parece... programada, aprendida, e não realmente sentida.

Talvez, ser humano não seja uma condição espontânea e absoluta. Isso tem me parecido ser fruto de certo trabalho, trabalho que pode ser mais fácil para uns que para outros.

Talvez eu não (ou nunca) me esforce o bastante.

Comments

  1. Pode até ser tudo verdade (não que seja, você que é babaquinha), mas vazio você não é. Falo isso com a certeza de quem te conhece mais ou menos por anos de conversas disconexas e piadinhas de duplo sentido. Acho que, talvez, o conteúdo seja tanto que esteja transbordando dessa sua cabeçorra gigante.
    Bom, sei lá, que nem eu te disse esses dias (leia-se ontem/hoje, tipo na hora que você tava postando isso), a gente é muito parecido com esse lance de auto-análise. Acho que isso é uma das coisas mais humanas de que se tem conhecimento: dúvidas. Porque são as dúvidas que nos levam a repensar nossas atitudes e quaisquer outros acontecimentos, ou não?
    Talvez você só esteja se esforçando demais pra se enquadrar numa noção errônea do que você deveria ser.
    Listen to your heart, peace out. :3

    Certo, parei de ser enxeridinha, bjosnaomeligue.

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  2. tá, você não é vazio... iludido, talvez. o que é espontâneo? a gente aprende a reagir ao mundo desde o momento em que somos concebidos. aceite a condição. não é só você. somos nós. se tem algo vazio aqui, talvez a vida. você, não. nem eu. tédio é conteúdo? dá trabalho buscar algo que tenha valor, ainda mais quando não sabemos muito bem aonde procurar... a verdade é que tudo é aprendido, mesmo o sorisso mais espontâneo.

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  3. beirut é o que eu mais tenho ouvido ultimamente - muito bom!

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