Olheiras

Faz dois dias que estou com olheiras. Eu nunca tive olheiras antes, mesmo quando dormia três, quatro horas por noite. Nas duas últimas noites, dormi seis horas de sono. Tive dificuldade de pegar no sono, fiquei na cama deitado por uma hora, uma hora e meia, duas horas sem conseguir adormecer. Fazia frio e o lençol não me protegia. Não queria fechar a janela para não fazer barulho. O frio incomodava e, talvez, me impedia de dormir. Eu me revirava bastante procurando uma posição confortável que me permitisse dormir. Tenho espaço para isso agora, não tem ninguém com quem dividir uma cama de casal. Sempre sonhara com isso, e agora já não tem tanta graça. O frio é mais intenso quando só se tem o próprio corpo como fonte de calor, e eu ando sem energia para gerar calor. Ando gastando energia demais com coisas inúteis. Em um desses dias, me apaixonei, só para desapaixonar ao fim do dia. Perguntei-me por que o equivalente em inglês para 'apaixonar' é 'fall in love' e 'desapaixonar' é 'fall out of love'. Por que tem que implicar queda? Curioso. Sendo assim, o oposto deveria ser 'climb out of love'. Amor é acidente? Sim. Não controlamos nem podemos prever. De qualquer forma, desapaixonei porque percebi que minha presença não era importante para você. Sua felicidade não depende disso. Nem a sua. Ou a sua. Minha existência não é condicional para a felicidade de ninguém além da minha família, meu porto seguro. Minha base. Mesmo longe deles, tanto emocionalmente quanto fisicamente, sei que posso contar com eles. No entanto, continuo tentando contar com outras pessoas, mas descubro que não posso contar. Com você. Ou com você. Ou você. Pelo menos não da forma que gostaria. Ou mesmo para uma conversa sincera e profunda, não as trivialidades que eu trago para o papo, para maquiar o silêncio. Mesmo querendo o silêncio no lugar dessas palavras vazias. Lembrei disso e me calei, para ver se isso a incomodaria. Não incomodou. Deve ter sido um alívio para você. E você. E você. Vou pegar um copo d'água, me dirigi à varanda. Fazia frio, mas mesmo assim me sentei ali, com as luzes apagadas. Todas as luzes do prédio em frente estavam apagadas, todos dormindo. Só eu fico acordado a essa hora? E para que, no fim das contas? Eu devia dormir cedo, acordar cedo, aproveitar o dia. No mesmo momento, me pergunto: "Pra quê?" Pensei em quanto tempo de um sumiço meu seria necessário para você se perguntar onde eu estaria. Cheguei à conclusão que eu poderia morrer e você não saberia, tampouco iria sentir falta. Você também não. E você. Eu sempre fui discreto e calado, uma combinação perfeita para a existência de um fantasma, alguém que não está lá. Alguém que passa despercebido, como o bom tradutor que deixa o autor falar por ele na outra língua. Penso em como não gosto de chamar a atenção e em como isso conflita com o fato de eu, por vezes, querer um pouco de atenção. Faz frio. Melhor voltar pra dentro, tentar dormir. Talvez se eu me enrolar no lençol o frio passe. Lembro de tomar o anti-inflamatório para a garganta. A garganta já está boa, por que continuo tomando o remédio? Só para acabar a caixa? Acho que o anti-inflamatório tem algo a ver com minhas olheiras. Nunca tive olheiras. E talvez com a insônia também. Afinal, não estou mais apaixonado por você. Nem por você. Ou por você. Ao fim do dia, me desapaixonei. Melhor parar com o remédio. Melhor parar.

Comments

  1. Seria muito clichê dizer que eu sei como é?
    Sei lá, eu sempre tive olheiras...

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  2. você subestima sua importância nesse mundo... tem idéia disso!?
    se tem, isso deve ser só poesia...

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  3. e quem não subestima a importância no mundo?

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