Suficiência

Sempre me considerei espiritualmente evoluído. Agora que vivo sozinho, vejo como isso me ajuda a agüentar a barra: o desespero ainda dá lá suas pontadas, que eu engulo em seco ou com poucas lágrimas. Evolução espiritual implica ser flexível para enfrentar qualquer situação, ter autoconhecimento para saber seus limites, saber enfrentar a dor e a angústia e conseguir aprender com esse sofrimento e se superar a cada instante, não se deixando entregar à mesquinhez de pensamentos pequenos como a vingança e o despeito.

Tenho percebido como me dedicar a isso tem me afastado das pessoas. Não como ato consciente -- e é até engraçado, pois me parece que são as pessoas que se recusam a se aproximar; não é isso, tampouco tenho deliberadamente recusado a companhia dos outros. É mais como se a situação estivesse adequada ao meu momento pessoal, tudo vem a calhar. A solidão não tem incomodado tanto: os longos silêncios são propícios para cultivar e desenvolver idéias mais complexas e cada vez mais abstratas acerca da natureza dos relacionamentos humanos, o assunto que mais tento entender.

De tão abstratas, percebo como estou ficando menos humano e mais distante, da seguinte forma: eu não me desespero ao ver que estou sozinho, o que seria absolutamente humano; a falta deste desespero talvez desencadeie um afastamento. As pessoas tendem a se aproximar das pessoas que lhe são parecidas, e eu estou me tornando gradualmente mais isolado num poço de calmaria e bonança. Pessoas querem... querem não, precisam de tempestade emocional, de reviravoltas e abalos para provarem ou sentirem que estão vivas. Eu sei que estou vivo e para mim basta.

O meu bastar não é suficiente para os outros.

Comments

  1. E pensar que eu dediquei muito do meu tempo no passado para superar defeitos, inseguranças e medos -- os tais 'pensamentos pequenos' -- pensando que isso me tornaria alguém melhor de se conviver. Acabou não tendo o efeito esperado, ainda que seja um efeito positivo, no fim das contas.

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  2. pois pra mim basta. e é totalmente compreensível. acho que isso é reflexo de amor próprio, sabe... sei lá, posso estar enganada. mas "os dias em que me vejo só são dias que me encontro mais". eu também tenho um movimento constante de afastamento. o que torna isso menos nítido é o fato de eu estar namorando. parece que tem sempre uma companhia, mas não é bem assim. sempre me dei muito bem com a solidão e com o silêncio. quando isso parece incomodar não é bem isso o que está incodando, mas alguma coisa com a qual não se está sabendo lidar. já percebi isso. quando estou plena, o melhor momento do dia é quando me encontro comigo, quando posso conversar comigo, escrever pra mim, fotografar pra mim. ler um livro, assistir um filme, ouvir música. as pessoas são lindas, mas na maioria das vezes atrapalham. sei lá, deve ser meu lado cabra que curte subir uma montanha e passar um tempo sozinha. acho que nunca tinha parado de verdade para pensar nisso. mas é muito bom quando paramos de fazer tanto pelos outros para fazer um pouquinho pela gente.

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  3. Não, você não está enganada. É que, exatamente como eu disse, por estar vivendo sozinho, estou perdendo os parâmetros de como são as outras pessoas. Esqueço como todos têm seus momentos de introspecção. Os meus, no entanto, têm sido mais freqüentes e mais intensos. E eu tenho toda uma capacidade de fazer companhia, de fazer o outro se sentir bem, que está passando despercebida e mal-aproveitada, sinto falta de poder fazer isso... Mas por enquanto, vou deixar os outros curtirem sua solidão, suas fases de "cabra da montanha" :)

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  4. =)
    o engraçado da vida é que tudo são fases...

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  5. dá uma olhada na postagem do dia 11/05!
    http://fotografiadoinverso.blogspot.com/

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  6. o que escreve e o que diz. o que faz e o que é. e em várias fases!

    temos mesmo que deixar essa cabrinhês dormir em um saco de pão enquanto tomamos uma cerveja (a despeito do estômago incomodado) e conversamos sobre fases.

    saudade também, muita.

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  7. Adorei o primeiro parágrafo, tanto que colei no meu blog. A idéia-chave são as últimas palavras do parágrafo. Abração.

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