Noite insólita

Sábado à noite. A convergência perfeita do dia mais hedônico da semana com a parte do dia mais propensa a pecados. Neste último, encontrava-me no conforto de meu quarto, já havia jantado e tentava decidir se passaria o tempo assistindo Equilibrium ou 2002 ou lendo tirinhas de Calvin e Haroldo e ouvindo mp3. Bem, não havia me decidido, quando me liga um amigo da minha aula de natação, o Gustavo:

– Alô.
– O Rafael está?
– É ele.
– Rafael, é o Gustavo, da natação. Beleza?
– Ô Gustavão! Beleza, cara. O que você manda?
– Aí, tu vai fazer alguma coisa hoje à noite?
– Er... não decidi ainda. Por quê?
– Tá afim de ir comigo lá na Trend?
– Aquela boate nova do Gilberto Salomão?
– Isso.
– Pô, nem rola. É meio caro lá...
– Nem esquenta com isso, eu tenho meus contatos, a gente entra de graça. Vamo!
– Humm... ok, beleza. Que horas, agora?
– HAHAHAHAHAHA! Ai, cara, tu me mata de rir. São só nove horas! Onze horas, ok?
– Onze horas lá?
– Não, porra, onze horas eu passo aí.
– Ok, falou.

Lá pras onze e meia, o cara me liga. Falou pra eu descer, pois estávamos atrasados. Após uma corrida impressionante de apenas sete minutos (ele me pediu para que eu cronometrasse) da minha casa até o Gilberto Salomão (é um centro de entretenimento no meio do Lago Sul, um dos bairros nobres de Brasília), chegamos ao local. E, pra completar, o lugar estava cheio. Nenhuma vaga visível. Perguntei como faríamos para estacionar.

– Relaxa, o lugar tem manobrista.

Bom, uma preocupação a menos. Ele entregou as chaves do carro pro funcionário da boate, e eu me dirigi à porta do estabelecimento. Nisso sinto um puxão forte, era o Gustavo.

– Tá maluco rapá? A gente vai calibrar antes de entrar, lá dentro tudo é cinco vezes mais caro.

Suspirei, resignado. Sentamos num barzinho ao lado (que por sinal nem era tããão mais barato assim) e ele pediu uma vodca, enquanto esquadrinhava a área. Umas cinco doses, vinte minutos (é, ele pediu para que eu cronometrasse isso também) e não sei quantos comentários jocosos (feitos, é claro, como se as garotas pudessem ouvir) depois, nos dirigimos à entrada da boate. Devo dizer, nunca havia visto tanta gala em tão pouco espaço. Fiquei parado na frente do segurança esperando o Gustavo achar os contatos dele e nos conseguir liberar a entrada. Matei o tempo elaborando uma rota de fuga, envolvendo um drinque derramado sobre um vestido caro, uma pequena confusão e uma corrida pra longe dali. Estava escolhendo o táxi que me levaria pra casa quando o Gustavão me puxou por detrás do segurança, gritando “ele tá comigo, ele tá comigo!”. Entrei.

– Ei, desculpa aí pelo mau-jeito, mas eu tinha que ser rápido.
– Nah, sem problema. Não me machuquei nem nada.

Luxação no pescoço nem é tudo isso que dizem. O importante é que estávamos dentro daquele “paraíso”, como ele dizia. Extremamente lotado, apesar dos preços salgados e da entrada exorbitante cobrada. Ele se aproxima e me fala, após passarmos pelo lobby:

– Ó, agora é cada um por si.
– Er... tá bom.
– Mas se eu beber demais, tu leva o carro, ok?
– Ah, tudo bem. Vai lá, campeão.

E daí eu o vi se misturar com a multidão, dando em cima de uma garota atrás da outra, sem qualquer sucesso. A cada cantada, que era a mais fina flor de sensibilidade e honestidade poética, e sua respectiva rejeição à altura, ele se sentia mais frustrado e irritado. Estava realmente engraçado vê-lo em suas aproximações, mas eu fiquei com sede. Dirigi-me ao bar, onde uma moça se mostrava claramente aborrecida com o barman. Pude acompanhar a contenda ao chegar mais perto.

– Listen! I want a fucking strawberry daiquiri, is it so hard to understand?
– Moça, eu ainda não consegui entender o seu pedido... poderia repetir mais divagar?
– Read my lips! S-T-R-A-W-B-E-R-R-Y D-A-I-Q-U-I-R-I!!

Resolvi intervir.

– Excuse me, miss?
WHAT? Um, I mean, yes?
– Um... could I perhaps help you with your order?
– Please do!
– Ela quer um daiquiri de morango.

Resumindo, ela queria um daiquiri de morango e o barman não estava entendendo bulhufas. Perguntei o nome dela e de onde ela era. O nome não direi aqui, mas ela era parente do embaixador da Guiana (bem que eu notei o sotaque inglês). Ela pegou o daiquiri dela, eu pedi minha cerveja e, pasmem, ela não foi embora. Esperou minha bebida chegar e fomos conversando (ou pelo menos tentando, no meio daquela barulheira) até a mesa onde ela estava com os amigos. Um grupinho bem impressionante, devo dizer. Devia ser a elite da capital, ou eu estava vendo óculos Gucci e bolsas Louie Vuitton demais. A menina me apresentou a um cara que parecia bem ocupado, entre umas cinco garotas.

– Nelson, this is Rafael. He helped me over there with my order.
– Ouráite! Rái Rafael.
– Eu falo português...
– Ah, ótimo. Meu nome é Nelson.

Me toquei depois que se tratava de Nelsinho Piquet, o que explicava tanto assédio e a ostentação. Até simpático, o rapaz. Mas no momento, terrivelmente ocupado. Sentei-me numa mesa ao lado, enquanto a guianesa tentava se comunicar com o coitado. É divertido ficar vendo as pessoas dançando e TENTANDO conversar. Me faz pensar na controvérsia de um lugar para o qual se vai para, admitamos, paquerar e flertar uns com os outros, e onde não se consegue fazê-lo porque não dá pra OUVIR o outro.

Daí senta uma garota do meu lado. Bonita. Ok, estou calmo, ainda observando o movimento. Só que aí senta outra garota. Do outro lado. Ok, estou nervoso. Recosto no sofá, tentando manter uma pose tranqüila. Teria dado certo se eu não tivesse sentido uma mão pousar sobre minha coxa. Não era a minha mão, então havia algo de errado. Eu ia balbuciar alguma piadinha, mas senti uma mão sobre minha coxa. Era outra mão e outra coxa, e nenhuma das duas mãos era minha. Decidi fazer contato visual, sem saber com qual das duas faria primeiro. A que sentou primeiro, esta parecia a escolha mais lógica. Vi que ela estava sorrindo, e quando vi a outra, ouvi o inevitável.

– Óunnn, que gracinha, ele está todo corado!

Droga.

– Er... oi.
– Oi gatinho! Qual seu nome?
– Rafael. E o de vocês?
– Mirna.
– Isa.
– Oi, Mirna e Isa.
– Oi!, responderam em coro.

É claro que já tinham tirado as mãos das minhas coxas. Papo vai, papo vem, de repente Isa se levanta, tasca um beijo ardente na boca de Mirna e diz que vai pegar bebidas no bar. Ela olha pra minha cara embasbacada e esclarece: são namoradas. Rebato com um mais que natural “Aaaaah, booomm...”. Ela se divertiu com minha reação e abriu o jogo: aquela encenação de sentarem do meu lado e se insinuarem era uma brincadeira que elas gostavam de aprontar com os caras em boates. Gostavam de ver a reação deles ao saírem abraçadas uma com a outra em vez de abraçadas com eles. Perguntei por que se divertiam tanto com esta brincadeira. Mirna contou que isso era devido à forma como tinham se conhecido.

– Bem, estávamos ambas num motel...
– Espera, você não disse que ia contar como se conheceram?
– Caaalma, garoto.

Explicou que estavam cada uma com o respectivo namorado. Alguns orgasmos e cervejas depois, os rapazes tinham saído de seus quartos e se encontraram no saguão do motel, cada qual procurando algo para matar o tempo enquanto se recuperavam. Junte um esbarrão, uma mesa, um baralho e um nível razoavelmente alto de alcóol no sangue e você terá dois caras jogando truco e apostando coisas que não deveriam. Quando Mirna soube que teria que transar com o namorado de Isa porque o seu namorado a tinha apostado e perdido, ficou naturalmente furiosa. Não quis saber dos “mas meu amor..” dele e saiu do quarto com suas coisas, encontrando Isa, igualmente enfurecida com uma certa proposta de ménage à trois.

– Foi amor à primeira vista?
– Não, primeiro foi vingança. Depois veio o amor etc.

Deixando os namorados trancados no mesmo quarto sem roupas e sem carteiras, pegaram o carro de um deles e foram pra casa de Mirna chorar as mágoas de seus últimos desastres relacionais, dando luz a algo que compartilhariam por muitos anos por vir: o desprezo pelos homens. Ou melhor, cafajestes (o que para algumas dá na mesma). Amizade, alguns beijos ocasionais, terminou como namoro assumido. E agora se encontravam há dois meses pregando peças em inocentes marmanjos.

– O que fez vocês desistirem de pregar a peça em mim?
– Ah, você parecia tão... não-cafajeste.

Corei de novo. E, de novo, mais um “Óunnn!”. Foi aí que vi Gustavão em mais uma empreitada sem sucesso, e visivelmente irritado com os foras. Achei por bem levá-lo pra casa antes que ele perdesse as estribeiras. Despedi-me das meninas e fui direcionando o cara pra saída, quando ele me fala, em tom ao mesmo tempo orgulhoso e de confidência:

– Aí, sabe aquelas duas minas que tu tava jogando um caô?
– Eu não tava jogando...
– Peguei as duas AO MESMO TEMPO, uma vez. As mina são QUENTE!
– Uh, certo. Acredito.

Tive que me conter durante todo o percurso da volta para não apontar pra cara dele e gargalhar.

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