Ursos

Nos últimos meses eu domei um urso. Um urso que regeu minha vida desde o início da minha adolescência. Um urso cuja "liderança" me levou, por caminhos tortuosos, a decisões que eram verdadeiros abismos.

Admito que foram decisões que fizeram de mim o que sou. O que somos a não ser erros, decisões equivocadas? Mas foram decisões tomadas baseadas em uma única pulsão, e não em uma ponderação de forças: razão, emoção, critérios sociais. Por isso condeno tanto tais decisões.

Levou muito tempo para que eu conseguisse distingüir a atração física, que também se dá pela sedução, de algo realmente significativo. Eu caía fácil por um olhar, um trejeito, uma característica. Era isca suficiente para esse urso faminto sair de sua caverna e causar estragos na cidade. Uma cidade que acabou mal-construída, mas que hoje pelo menos cumpre suas funções.

Após algum tempo, apenas saber distingüir a atração física do algo mais mostrou ser insuficiente. Eu sabia por onde o urso andaria, exatamente onde ele causaria estragos, mas não tinha defesas. Era necessário impedi-lo de agir, mantê-lo preso dentro da cidade, onde eu pudesse vê-lo, medir sua força de decisão em nível de igualdade com as outras.

O que eu quero dizer com tudo isso? Que a atração existe, sim. Afinal, os hormônios ainda circulam pelo meu sangue. Mas a decisão será tomada por mim, e não por eles. E eu digo que será necessário muito mais para que eu tome esta decisão (acho que agora eu posso considerar isto uma decisão e não algo fortuito). Não apenas a voz, mas as palavras. Não apenas o trejeito, mas a atitude. Não apenas uma idéia, mas todas elas. Uma maneira menos animalesca de ser civilizado.

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