Compadecimento inútil

Jantar. Nenhuma ocasião especial, mas decidimos sair para jantar. Estes eram os melhores momentos, as saídas para gastar recursos sem absolutamente nenhum motivo especial, apenas para satisfazer um prazer e conversar (nem sempre um prazer).

O lugar é de classe, freqüentado pela elite da cidade – que não é nada modesta ou lacônica. O tipo de lugar onde a realidade é totalmente escamoteada em prol de uma experiência sócio-gastronômica perfeita.

Mas Brasília se tornou uma cidade de errantes. Atraídos por ideais de riquezas e promessas de terras a perder de vista para quem quisesse – indevidamente prometidas por esta mesma elite que se esbanja no local –, eles estão por toda parte. A ilusão acaba no momento em que eles põem o pé para fora do ônibus. Já na rodoviária se vêem os desiludidos mais experientes, que apenas mendicam o sustento do dia-a-dia, pois trabalho não há (nem esperança, ou talvez apenas um pouco). Mas eles não ficam somente por lá. A promessa de gorjetas e agrados mais generosos não reside ali, e sim nas áreas de alto (e auto) consumo. Eles se dirigem para lá, com a fome no corpo e a fé na alma. Um deles estava lá.

O cansaço havia tomado conta de seu corpo. Não estava mendigando. Não havia forças para isso. Após uma peregrinação pela cidade, onde não há sinal de vida nas ruas – as pessoas se escondem –, o abandono desamparando e minando a força de vontade que não conhece limites deste tipo de pessoa, ele só pensava em repousar. E o fez, inocentemente, no gramado em frente ao luxuoso restaurante. Um gramado que é bom o suficiente para os pés dos freqüentadores do lugar, para as patas e excrementos dos cachorros dos transeuntes, mas que está muito acima das costas cansadas de um camumbembe. E lá foi o garçom, indignado por ter de cumprir função tão desonrosa – lidar com seres humanos –, retirar o inocente de seu sono.

Como sou covarde tímido demais para me manifestar, não tive muita escolha a não ser chorar. Chorei porque haviam negado a uma pessoa o prazer de dormir em um gramado, que não chega a ser uma cama, por motivo algum a não ser a pura e simples pureza estética do lugar. Chorei porque aquela pessoa portadora de 46 cromossomos como eu, atordoada por ser desperta de um sono profundo, foi empurrada para longe da luz que chegava aos olhos dos clientes. E o pior é que minhas lágrimas nunca saciarão a fome ou a sede ou outras necessidades desta pessoa.

Lágrimas inúteis.

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