Moskva
Ao avistar a casa azul, já lhe vinham as lembranças, as péssimas lembranças de tardes desperdiçadas e pensamentos perdidos num redemoinho de incompreensão. O que fazer?, não podia negar, não podia fugir, a imposição foi mais forte que qualquer respeito que podia receber. Desta vez, no entanto, não iria sucumbir à ignorância.
Entrou com um semblante sério, taciturno, grave. Queria demonstrar que não estava ali para conversas superficiais sobre quaisquer assuntos mundanos que lhe poderiam apresentar, seja talvez sobre dinheiro, relações insignificantes com mulheres sub-apreciadas ou as frivolidades disparadas por aquela caixa sem graça. Entrou com um livro de Dostoiévski debaixo do braço, seu único refúgio, um escudo contra a aproximação daninha daqueles que se dizem seus iguais.
Lutou contra seus instintos de socialização que já lhe era desnecessária (vivia bem sozinho; suas reflexões já lhe tomavam todo seu tempo e atenção). Para isso fora necessário evitar dar trela às provocações testosterônicas, se mantendo calado e correndo o risco de causar um constrangimento que seria certamente punido posteriormente. Teve sorte, as carapaças deles não deixam sutilezas atingirem-nos. Após os primeiros obstáculos, se concentrou em continuar sua jornada pela trama dostoievskiana, onde ele espera encontrar respostas para tantas dúvidas. Sentou-se.
Ao que ele começa a entrar no mundo russo, estranha quando lhe vêm à mente Aliócha gritando com crianças e Ivan rindo alto como bêbado incauto que não era. A atmosfera ao redor não lhe permitia, com toda aquela pândega, formar propriamente as imagens necessárias ao entendimento da história. Decidiu se render e cessar momentaneamente a dor com aquilo que parecia ser alimento, embora não parecesse ter qualquer qualidade nutritiva. Difícil comer com tanto barulho. Era como se o ruído de crianças crescendo e adultos morrendo criasse um molho sobre aquela inocente alface, o alvo arroz e a carne que seria uma pedra aos de estômago normal. Um molho que amargava o sabor e magoava a sensação de comer de tal forma que tudo não passou de simples movimento de mandíbulas e movimentos peristálticos. E ainda foi oferecida uma sobremesa que deveria ser a forma mais concentrada de carboidratos já conhecida, uma mistura bizarra de melaço com farinha. Talvez fizesse sentdo para estes ao redor dele, talvez eles tivessem fetichizado tal mistura a ponto de apreciá-la como o mais puro iogurte com mel para um mulçumano privado de todo alimento há dias. Mas não para ele. Ele não havia nascido ali. Ele não havia crescido ali. Ele nem mesmo existia ali, pois sua mente o levava a outros lugares de tempos em tempos, lhe compensando por uma realidade sem estímulos.
Saiu dali sem qualquer alívio. Sabe muito bem que haverá de voltar àquele lugar cedo ou tarde, enquanto seu corpo frágil ainda portar um coração bobo de vidro que insiste em manter as aparências. Em sua longa caminhada, pensando da direita para a esquerda, ele terá de enfrentar os que se dizem seus iguais.
Entrou com um semblante sério, taciturno, grave. Queria demonstrar que não estava ali para conversas superficiais sobre quaisquer assuntos mundanos que lhe poderiam apresentar, seja talvez sobre dinheiro, relações insignificantes com mulheres sub-apreciadas ou as frivolidades disparadas por aquela caixa sem graça. Entrou com um livro de Dostoiévski debaixo do braço, seu único refúgio, um escudo contra a aproximação daninha daqueles que se dizem seus iguais.
Lutou contra seus instintos de socialização que já lhe era desnecessária (vivia bem sozinho; suas reflexões já lhe tomavam todo seu tempo e atenção). Para isso fora necessário evitar dar trela às provocações testosterônicas, se mantendo calado e correndo o risco de causar um constrangimento que seria certamente punido posteriormente. Teve sorte, as carapaças deles não deixam sutilezas atingirem-nos. Após os primeiros obstáculos, se concentrou em continuar sua jornada pela trama dostoievskiana, onde ele espera encontrar respostas para tantas dúvidas. Sentou-se.
Ao que ele começa a entrar no mundo russo, estranha quando lhe vêm à mente Aliócha gritando com crianças e Ivan rindo alto como bêbado incauto que não era. A atmosfera ao redor não lhe permitia, com toda aquela pândega, formar propriamente as imagens necessárias ao entendimento da história. Decidiu se render e cessar momentaneamente a dor com aquilo que parecia ser alimento, embora não parecesse ter qualquer qualidade nutritiva. Difícil comer com tanto barulho. Era como se o ruído de crianças crescendo e adultos morrendo criasse um molho sobre aquela inocente alface, o alvo arroz e a carne que seria uma pedra aos de estômago normal. Um molho que amargava o sabor e magoava a sensação de comer de tal forma que tudo não passou de simples movimento de mandíbulas e movimentos peristálticos. E ainda foi oferecida uma sobremesa que deveria ser a forma mais concentrada de carboidratos já conhecida, uma mistura bizarra de melaço com farinha. Talvez fizesse sentdo para estes ao redor dele, talvez eles tivessem fetichizado tal mistura a ponto de apreciá-la como o mais puro iogurte com mel para um mulçumano privado de todo alimento há dias. Mas não para ele. Ele não havia nascido ali. Ele não havia crescido ali. Ele nem mesmo existia ali, pois sua mente o levava a outros lugares de tempos em tempos, lhe compensando por uma realidade sem estímulos.
Saiu dali sem qualquer alívio. Sabe muito bem que haverá de voltar àquele lugar cedo ou tarde, enquanto seu corpo frágil ainda portar um coração bobo de vidro que insiste em manter as aparências. Em sua longa caminhada, pensando da direita para a esquerda, ele terá de enfrentar os que se dizem seus iguais.
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