Rodoviária: um mundo em si próprio

Rodoviária. Na acepção fria do dicionário, esta palavra define uma estação de embarque e desembarque de passageiros de ônibus. Esta acepção não se aplica à rodoviária de Brasília, porém. Assim como foi necessário um artista (como pode ser chamado o arquiteto) para criá-la, é necessário um artista (o poeta) para defini-la. Logo, aos olhos de um artista, a rodoviária de Brasília é o próprio Caos no coração da Ordem.

Uma das dificuldades da definição da rodoviária é a determinação de seus limites. Não seria muito claro para um turista saber onde acaba a estação e começa o Conjunto Nacional ou o Conic, por exemplo. Pode-se dizer que ela é aquele monte de concreto entre os carros, estejam eles amontoados nos estacionamentos ou em movimento furioso nas ruas. Ruas estas que passam a norte, sul, leste e oeste da rodoviária, e até mesmo por baixo dela.

Na plataforma superior da rodoviária não existe nada que lembre uma rodoviária, pois tudo que se vê são lojas: revistarias, livrarias, lanchonetes, vendas de bugigangas. Ao lado de todo este comércio, há duas escadas, pois tudo em Brasília é perfeitamente simétrico. É por causa dessa simetria que as escadas rolantes de ambos os lados não funcionam.

Após o primeiro lance de escadas, temos o mezanino, de onde já podemos ver e respirar aquilo que movimenta o lugar: os ônibus. Aqui temos restaurantes, farmácias, lojas de roupas e de mais bugigangas e muitas agências. Agência dos Correios, da Polícia Militar, da Polícia Civil, do Tribunal Regional Eleitoral.

No andar de baixo, se situam os pontos de ônibus, e atrás deles, filas, filas, e mais filas. E entre eles, mais lojas, a maioria delas relacionada com comida. Duas delas, em particular, chamam atenção pela tradicionalidade: a Diziolin, que vende doces e salgados industrializados; e a Viçosa, onde se vende a mais que conhecida combinação de pastel e caldo de cana.

Localizado no subsolo do vão entre Conjunto Nacional e Conic, fica o adendo mais recente da rodoviária. Lá ficam os estandes de venda de passes das empresas de ônibus e a imponente e luxuosa -- para não dizer dispendiosa -- estação do metrô.

Mas o componente mais notável da rodoviária, que torna possível compará-la a uma pequena cidade, são as pessoas. Pela rodoviária passa todo tipo de gente, o que se pode constatar na quantidade de fotos existentes nos painéis dos velhos lambe-lambes, localizados no subsolo, ao lado das escadas. Chega a ser impressionante o fato de se encontrar gente em todos os cantose passagens da rodoviária, paradas ou em movimento como formigas a percorrer seu caminho, obstinadas. Para muitas pessoas, este lugar é moradia; nos pontos menos movimentados é possível ver famílias inteiras dormindo, no chão ou sobre cobertores maltrapilhos. E, em seus olhos famintos por uma vida mais digna, percebe-se também a desilusão de quem veio a Brasília em busca de trabalho e morada e acabou -- como sempre acabam as pessoas simples -- encontrando o desespero da fome e do desabrigo.

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