Falar dos outros

"Pessoas ditas superiores falam de idéias; pessoas ditas medíocres* falam de eventos; pessoas ditas inferiores falam de pessoas."

Esse é o típico pensamento ridículo de intelectualóides que acham que falar de pessoas implica, necessariamente, fofocar. E que, claro, colocam a noção de se falar de coisas abstratas, que não são claramente perceptíveis pelos nossos sentidos físicos, como "superior".

Ok, então. Falarei de Flingas. Flingas é a sensação que vem logo após o medo de não conseguir atingir um objetivo. Flingas está em algum ponto entre o medo e o desespero, não sendo exatamente o medo por se estar convencido que o objetivo não será alcançado, portanto essa certeza anula o medo. E não chega a ser desespero porque ainda se procura um meio de se chegar ao menos perto desse objetivo, de modo a não representar falha absoluta. No desespero sabemos que o objetivo simplesmente não será alcançado e que haverá conseqüências com relação a isto. Pois bem, isso não é flingas, flingas é o estágio anterior. Eu flingo, tu flingas, ele está flingado.

Em suma, ridículo.

Qual o problema de se falar de pessoas? Falando de pessoas, falamos de traços que admiramos ou que desprezamos. De certo modo, definimos para nós (apesar de exteriorar para outros) o que queremos ou não para nós mesmos. Quando dizemos "Fulano é desprezivelmente infiel, um pudim de hormônios! Apesar de ser comprometido, não pode ver alguém do sexo oposto que já vai se engraçando!", estamos definindo o quão negativa é a noção de infidelidade, não para os outros – como pode se pensar –, mas para nós mesmos.

Entendam que, para não se tornar uma ação redundante e inútil, não podemos pensar nas características das pessoas querendo que elas mudem. Não adianta falar sobre a infidelidade de fulano pensando que isso vai, de algum modo, chegar a ele e fazer com que ele mude isso. Acredite, fulano não vai dar a mínima. Mesmo porque ele está, no momento, ficando com ciclana, que não é a namorada dele (gente, que horror!).

Pessoas são tudo que existem na nossa realidade. É delas que surgem eventos e idéias. Ao falar delas, estamos falando do cerne de tudo. Quem fala de pessoas e questiona o que vem delas, pode muito bem estar tentando entender sua própria realidade. E não há nada de errado nisso.

* Medíocre no sentido original da palavra, ou seja, de qualidade média.

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